Joaquim comenta a função espelho PARTE 2

May 28, 2009 by admin  
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Isso porque a função espelho é Real, ou seja, aplica-se a cada micro fração de sua existência. Caso alguém aqui não me conheça não sabe que eu gosto de exemplos bem fortes e pode ficar surpreso com o que vou dizer agora, mas isto é Real. Sabe aquela pessoa que ‘tira meleca do nariz’ no meio da rua? É um espelho para você ver a ação moralista do seu ego que lhe faz julgá-lo de porco.

Não existe distinção entre qualquer situação percebida, que teve a sua realidade construída pelo ego: em todas elas o criador de ilusões gera uma compreensão e para tanto utiliza uma verdade individualista que senão ‘calada’ (cessada a crença nela) forçosamente levará o espírito a vibrar dentro do egoísmo.

É disso que eu estou falando. Sabe o acontecimento que teve lugar do outro lado do mundo hoje e que você leu no jornal ou ouviu no rádio e na televisão? É espelho para você., é fonte para que você aprenda a conhecer-se.

Por isso é que é fundamental para a elevação espiritual o perfeito conhecimento da ‘função espelho’ em seu mais amplo sentido. Viu como o debate amplia a minúcia do assunto o que nos leva a compreender mais profundamente o tema?

E, até agora, só estamos falando do outro se relacionando com você como seu ‘espelho’. Já iremos falar de você como reflexo dele. Aí verá como é ainda mais importante se compreender disso. Eu diria até, que sem viver com essa realidade é impossível se alcançar a bem-aventurança, a felicidade que os santos sentem.

Agora imagine se você tivesse estudando a vida de Marte neste momento… Será que aprenderia a não julgar quem ‘tira meleca do nariz’ como ensinou Cristo?

Participante: Partindo do que o senhor disse, o que posso compreender como não aprender?

Na Realidade o espírito não tem nada a aprender nesta vida. Todos os acontecimentos não devem gerar uma cultura, um aprendizado, mas servem como instrumentos para que o espírito comprove a si mesmo aquilo que aprendeu na erraticidade como já vimos anteriormente aqui em ‘O Livro dos Espíritos’.

No entanto, posso dizer que ‘não aprender’ é não aproveitar a encarnação para elevação, não colocar em prática os ensinamentos que ‘estudou’ antes da encarnação. A partir disso, posso ainda dizer, apenas fazendo um jogo de palavras, que aprender é conseguir por em prática o que já sabia.

Por isso afirmo que o ‘aprendizado’ possível de ser feito nesta vida não é decorar livros, aprender a vida de Marte, ter conhecimentos sobre energias, conhecer os seres ovóides ou coisas do gênero. Nada disso.

Só se pode dizer que um espírito ‘aprendeu’ alguma quando ele vive a vida material como espírito que é, ou seja, vibrando apenas o amor universal e entendendo o universalismo: o estar fundido ao Todo. Na Realidade não foi um aprendizado feito durante a vida carnal, mas como apenas depois que comprova a si mesmo o espírito pode dizer que aprendeu, podemos então utilizar este termo como algo a ser feito durante a vida carnal.

Quanto ao resto que ele pode ‘aprender’ (ter conhecimento) durante a encarnação, seja de ciência material ou espiritual, é ‘cultura inútil’ que vai acabar porque tudo que se ‘aprende’ na Terra é compreendido de uma forma material. Vou dar um exemplo.

Você estuda energia, fluído cósmico universal. Participa de trabalhos espirituais com a intenção de conhecer e aprender mais sobre a propagação deste elemento universal. Este aprendizado, porém, é criado a partir de idéias, de formas, de valores que só existem no planeta Terra.

Lembra-se de uma das perguntas que estudamos anteriormente aqui em ‘O Livro dos Espíritos’? [1] Ali o Espírito da Verdade responde a seguinte pergunta: “Esse fluído será o que designamos pelo nome de eletricidade”? Sua resposta: “O que chamais fluído elétrico, fluído magnético, são modificações do fluído universal, que não é, propriamente falando, senão matéria mais perfeita, mais sutil e que se pode considerar independente”.

Ou seja, o fluído cósmico universal não é o fluído elétrico ou magnético conhecido na Terra. Apesar disso, os seres humanizados continuam trabalhando energeticamente com o elemento espiritual simulando as mesmas propriedades que os elementos terrestres possuem e achando que estão ‘certos’ em suas crenças.

Por isso afirmo: o espírito não consegue aprender nenhuma Realidade Universal enquanto preso ao ego. O máximo que ele pode alcançar é uma interpretação material de algo espiritual. Mas, este conhecimento não será útil de forma alguma quando livre das ilusórias percepções geradas pelo ego.

Além disso, tudo aquilo que ele precisa saber com relação a este detalhe, já está presente em sua consciência espiritual. Ou seja, ele já conhece a Realidade. Por isso a ilusão hora criada de nada serve, ou melhor, serve assim: como distração para não realizar o verdadeiro objetivo da encarnação que é provar a si mesmo que aprendeu na erraticidade a amar a Deus acima de todas as coisas e ao próximo como a si mesmo.

Você já aprendeu tudo o que tinha de aprender de ciência espiritual. Não na figura e formas conhecidas no mundo terrestre, mas na Realidade de todos os elementos espirituais.

Assim sendo, você transforma a sua existência numa busca desenfreada de aprendizado, cultura, mas, quando sai da carne (desliga-se do ego) tudo que foi agregado a ele se perde. Então, todo aprendizado, mesmo sobre as coisas espirituais, é perdido com o desencarne.

Agora todo ‘aprendizado’ no sentido de saber amar incondicionalmente, portar-se como espírito, é eternizado.

Bom, conversada a primeira parte da ‘função espelho’, vamos passar à segunda: quando você e sua participação servem como oportunidade para a reflexão do próximo. Ou seja, quando você pratica algum ato frente a alguém.

Começo dizendo: saiba que você não pratica nada frente a ninguém. Tudo que você faz frente a alguém apenas espelha um ‘reflexo’ do íntimo (verdades do ego) desta pessoa. O seu ato é um ‘reflexo’ do interior dos outros seres humanizados, ou seja, espelha aquilo que está no íntimo dele para que ele também possa entender as verdades do seu ego e combatê-las.

Com este conhecimento acabamos com algo muito comum no planeta Terra e que é chamado de ‘culpabilidade’. Veja bem: se você não pode culpar o próximo porque o que ele pratica é apenas o reflexo de suas verdades, também não pode se culpar pelos atos que pratica, pois você é a ‘imagem refletida’ dele.

Este é um aspecto importante para quem quer aproveitar a vida carnal como instrumento de elevação espiritual: o outro não é culpado, mas você também não.

Isto porque não existem culpas. O que existe realmente é cada um praticando ações que sirvam como reflexo às verdades do outro e, por isso, agindo em prol e benefício do próximo.

E, ainda tem gente que diz que a vida carnal é injusta ou feia. Olha que mundo maravilhoso. Veja que Deus Perfeito, que coloca alguém que aparentemente lhe ofende como reflexo seu, mas que também lhe faz reagir com nervosismo, briga, grito ou de qualquer outra forma contra quem lhe ofendeu, para que sua atitude sirva à ele, dando-lhe a oportunidade de conhecer-se (conhecer as verdades do ego).

Não sei se está dando para compreender o que eu quero dizer. O que estou afirmando é que, na Realidade, em cada relacionamento entre dois seres humanizados, o que cada um pratica serve como espelho para o outro, ou seja, tudo está interligado, é interdependente, como ensinou Buda. O outro pratica o que você precisa e você reage sempre da forma que ele precisa. Por isso volto a afirmar: não há culpas.

Observe que no texto que estamos analisando, ao referir-se ao conhece a ti mesmo, Santo Agostinho não fala em reconhecer em si culpas, não ensina que precisamos avaliar possíveis ‘erros’ cometidos para outrem. Na verdade o que ele diz é que precisamos aprender a reconhecer se não faltamos a algum dever e se ninguém tem motivo para de nós se queixar.

Faltar ao dever seria não servir de espelho para o próximo levando-o, assim, a não se auto conhecer e, por isso, ter a condição de queixar-se, quando do retorno à pátria espiritual, de não ter recebido a ajuda necessária para a sua reforma íntima. É a isto que devemos estar atento e não àquilo que praticamos aos outros, ou seja, se o ato que fazemos está dentro de um padrão aprovado pela humanidade como ‘bom’.

Mas, como já aprendemos, Deus é a Causa Primária de todas as coisas, o Senhor Supremo dos carmas. Se assim é, Ele é quem comanda a nossa participação dentro dos atos humanos. Por isso posso afirmar que alguém jamais deixará de receber a presença de um ‘espelho’ que lhe facilitará o auto conhecimento necessário para a reforma íntima. Portanto, posso afirmar, que ninguém deixará jamais de fazer a sua parte.

Partindo desta compreensão, pergunto, então, porque Santo Agostinho, que conhecia perfeitamente esta Verdade do Universo, nos aconselha a nos alisarmos sempre para ver se não faltamos com nosso dever? Porque, além daquilo que é realizado no ato físico, a participação de um ser humanizado em qualquer momento de sua existência deve ser vivenciada com o amor universal.

Servir ao próximo não pode se refletir apenas nos atos, pois estes ultrapassam a intencionalidade de um ser ao vivenciá-los já que são pré-escritos pelo Pai para servir de instrumento a quem os recebe, mas precisa ser comungado com o amor desapegado. Quando o ser humanizado cria uma situação como espelho do próximo, se ele vivencia tal atividade com uma motivação individualista (eu quero, eu gosto, eu acho), ele deixou de cumprir o seu ‘dever’, ou seja, deixou de amar universalmente, desapegadamente ao seu ego.

Viver desse jeito (com a compreensão de que sua ação é um espelho para o próximo, mas também não fundamentar-se em suas paixões individuais para julgar o que fez) é o cumprimento real do ‘dever’ de cada ser humanizado. Mas, infelizmente poucos conseguem viver assim. A grande maioria, além ser instrumento da criação do ato, naquele momento ama condicionalmente, ou seja, participa da ação movida por suas paixões individualistas e quando assim faz, surgem, então, a depressão da dor ou a exultação do prazer.

Já falamos do elemento ‘dor’ (culpa) do binômio resultante de quem participa como ‘espelho’ de seu irmão durante os acontecimentos da vida carnal. Falemos agora do seu oposto: a exultação do prazer.

Se você pratica alguma atitude, mesmo aquelas que pelos padrões humanizados (pela lógica que prioriza a felicidade terrestre à individual) é transformada em ‘errada’, mesmo que aparentemente o outro ‘sofra, você não deve sentir-se ‘culpado’ pelo que praticou, mas também, de forma nenhuma, deve achar que está ‘certo’ em praticar. Não estamos falando em ‘certo’ ou ‘errado’, mas em necessário, em imperioso que acontecesse.

Por isso a reação com prazer (“fiz mesmo, ele precisava, ele merecia, eu tinha que brigar mesmo, ele que se vire”) é um descumprimento do ‘dever’ do ser humanizado como instrumento de auxílio na Obra do Pai (o auto conhecimento do que reformar-se)[2]. Isto porque nesta reação está demonstrada a ausência da real compaixão (consciência do sofrimento dos outros sem exultar-se ou sofrer por isso) que está presente quando o amor (sentimento como qual o ser humanizado reage a um acontecimento) não é universal, desapegado de individualismo, egoísta.

Como o espírito é instrumento de Deus, o prazer (encontrar satisfação no que faz) que ele sente torna-se um descumprimento do ‘dever’ dele como instrumento do Senhor. Para que este ser humanizado cumprisse à risca seu ‘dever’ seria necessário que ele tivesse a equanimidade (igualdade de ânimos) em tudo o que vivencia.

Sendo assim, aquele que cumpre realmente o seu ‘dever’ deveria imaginar da seguinte forma a sua participação nos acontecimentos: “tinha que acontecer desse jeito e eu tinha que ser o instrumento de Deus para tanto. Louvado seja o Pai”.

Então, aí está a função espelho no seu sentido mais amplo. Todos os acontecimentos que ocorrem no Universo e dos quais toma ciência, são imagens que refletem o seu interior e eles acontecem dessa forma para que você aprenda a se auto conhecer em profundidade. Mas, tudo que você faz frente ao próximo, também é um ‘serviço’ à comunidade espiritual, pois está representeando um ‘papel’ criado por Deus de tal forma que ele reflita o interior do próximo. E, como é Deus que cria a fala, a ação e a interpretação daquele papel, você não tem motivos para acusar-se ou vivenciar o acontecimento num estado de soberba (prazer), se auto elogiando por ter sido espelho do próximo.

Este é, em suma, o ensinamento que pode lhe ajudar a viver esta vida sem motivações individuais. Este é, na prática, o ensinamento que pode lhe levar a viver esta vida (carnal) com equanimidade, apatia pelos acontecimentos da vida. Por quê? Porque tudo que acontece (o que você faz e o que os outros fazem) não é a vida em si, mas sim Deus criando personagens e situações para que os espelhos se reflitam.

Participante: Pode falar mais de viver a vida? Viver a vida é ir deixando de lado o ego?

‘Viver a vida’ é vivenciar a existência no seu sentido mais amplo, ao invés de viver os acontecimentos da vida.

Hoje você ‘vive’ a carência, a abstinência, a abastança. ‘Vive’ a família, o emprego, seus filhos… Agora a vida, você não vive.

Mas para entendermos melhor esse tema, precisamos compreender o que é a vida… Posso dizer que a ‘vida’ é o a graça de Deus para seus filhos e que ‘estar vivo’ é sentir a glória de estar encarnado para o trabalho da reforma íntima.

Sendo assim, quando digo que você deixa de viver a vida, digo que deixa de vivenciar a graça de Deus e a glória da busca da reforma íntima. Ao invés de vivenciar estes elementos que são universal e eterno você prefere vivenciar os acontecimentos da vida: suas carências, dúvidas, medos, etc. Enfim, você vivencia o que o ego lhe diz que está acontecendo e não a ‘vida’. Isto porque tanto a forma dos acontecimentos como o valor que lhes é dado são criações do ego, que ocorrem naquilo que chamamos de mundo interior.

Por isso posso dizer que você colocou muito bem: ‘viver a vida é ir deixando de viver o ego’. Portanto, vá deixando de viver as criações do ego e viva Deus e o fato de estar encarnado para a reforma íntima.

Participante: É por isso que não faz sentido discutir se uma raça é superior e outra inferior?

Aliás, nem existem raças, não é mesmo?

O que é raça? Uma série de verdades e conceitos que se tem a respeito de determinadas características de seres humanizados e que servem como prova para o espírito.

O preto não é uma raça… A pele preta que alguns seres humanizados ostentam em seu corpo físico, é uma caracterização da carne que serve como motivação lógica para a existência de algumas verdades ilusórias (conceitos) que justificaram racionalmente determinadas atitudes. Este conjunto (cor da pele e conceitos) é levado à consciência pelo ego dos seres humanizados para ver se eles se sentem ofendidos com o preconceito quando negros, ou para ver se acreditam no ilusório preconceito que o ego cria, quando de pele de outras pigmentações.

Participante: Levado ao extremo, este conceito justifica matar para não ser morto, a legítima defesa sem nenhuma emoção?

Primeiro: viver sem emoção é ser equânime, ou seja, conota uma reação universalista. Isto porque equanimidade acontece quando o ser humanizado tem uma só emoção, que eu chamo de apatia com as coisas da vida, mas que já foi chamada por outros por diversos nomes e representadas de diversas formas.

Portanto, a ‘vida santa’ é a vivência dos acontecimentos sem alteração de emoções (hoje com raiva; amanhã feliz) e não aquela que atende a padrões humanos de ‘bom’ e ‘mal’.

Segundo: matar quem, espírito? Espírito não morre… Matar quem, a carne? Carne não morre, se transforma… Só por essas duas simples constatação pode ficar bem claro que a sua surpresa com esta constatação é desprovida de Realidade. Para que você não se surpreenda mais se lembre: não há morte (término de alguma coisa), mas o que ocorre com um ser é o desencarne.

Sim, com este ensinamento (toda ação de um ser universal é dirigida por Deus de tal forma que sirva como uma oportunidade para que os envolvidos reconheçam as verdades individualistas que estão no seu interior, no seu ego) podemos entender que o desencarne pode acontecer através de instrumentos humanos de Deus, sem que por isso, haja culpados ou inocentes, vítimas e algozes, ou qualquer outra motivação do que a roda do carma girando.

. Mas, para não dizer que estamos falando de algo extremamente novo, voltamos a uma pergunta anteriormente estudada aqui em O Livro dos Espíritos (853a). Se fizermos isso veremos que ninguém desencarna antes da hora e que Deus sabe a forma como cada um vai desencarnar. Portanto, não sou e[o eu que afirmo, mas o Espírito da Verdade também ensina que quem desencarna através de um tiro, o fez na hora que tinha que acontecer e através de um motivo pré-conhecido de Deus.

Se isso é verdade, pergunto então: quem é o culpado? Só se for Deus, que já sabia que aquilo iria acontecer e não fez nada que pudesse evitar...

Se quisermos nos aprofundar mais no assunto, podemos estudar, também, o Bhagavad Gita. Este ‘cântico’, que possui o mais alto ensinamento de Krishna, trata-se da argumentação deste mestre a um discípulo (Arjuna) incitando-o a participar de uma guerra onde seria instrumento para o desencarne de outros seres humanizados que, além de tudo, eram seus parentes consangüíneos. E para isso o Bendito Senhor diz::

“Estiveste lamentando-te por aqueles que não o merecem. Todavia pareces falar como um sábio. Só que os verdadeiros sábios não se lamentam nem pelos vivos nem pelos mortos”.

“Sabe, Arjuna, que nunca houve um tempo em que EU (SER) deixasse de existir, nem tu, nem esses reis e jamais deixaremos de existir no futuro”.

“Assim como o ser encarnado tem a sua infância, juventude e velhice, assim também tal ser ressurge como outro corpo. Os Sábios nunca se confundem a respeito disso”.

“Ó tu, o melhor dos homens, somente aquele que não se aflige por tais modificações e é equânime tanto no prazer como na dor realiza a Imortalidade”.

“O irreal jamais existe; o Real nunca é inexistente. Os Sábios percebem claramente esta Verdade”!

“Compreende que aquele que interpenetra tudo isto é imortal. Ninguém nem nada pode destruir esse Princípio Imutável”!

“Aquele que pensa que este SER mata e aquele que pensa que este SER é morto, os dois são ignorantes (porque pensam, raciocinam). O SER não mata nem morre”.

“Esse SER não nasce nem morre e tampouco reencarna[3]; o SER não tem origem; é eterno, imutável, o primeiro de tudo e todos e não morre quando matam o corpo”.

“Ó filho de Pritha, como pode morrer ou causar morte de outro aquele que sabe vivenciadamente que esse SER é indestrutível, eterno, sem nascimento e imutável?”

“Assim como alguém costuma deixar suas roupas gastas e bota outras novas, assim o SER corporificado e humanizado abandona seu velho corpo e faz-se outros novos”.

“As armas não o cortam, o fogo não o queima, a água não o molha e o vento não o seca”.

“A este SER não se lhe pode cortar, nem queimar, nem molhar, nem secar; é eterno, onipresente, estável, imóvel e primordial”.

(Bhagavad Gita – Capítulo II – Sankhya Yoga ou o caminho do discernimento – versículos 11 a 13 e de 15 a 24).

Então, sim, tal ensinamento, levado ao extremo, lhe fará ver que não há morte, mas desencarne. Mas também lhe mostrará que cada um vai desencarnar na hora que tem apropriada para tanto e que tudo que acontecer durante o ato que espelhará tal situação servirá como uma oportunidade de auto análise a todos os espíritos envolvidos nele. Ensina, ainda que, por isso, todos os envolvidos no ato devem vivenciá-los sem emoções diferenciadas do ‘amor universal’ para poder cumprir seu dever com Deus e com a comunidade espiritual.

Aliás, saiba que ninguém se emociona (sofre ou se exulta) pelo morto, mas por si mesmo. Aquele que sofre por si (“ele foi embora e agora como eu vou ficar”) frente ao ato de uma ‘morte’ e aquele que se exulta neste momento (“não prestava, não valia nada, mereceu morrer”) agem motivados por paixões individuais: o que achavam dos outros, o quanto queriam que o outro estivesse ‘vivo’ ou ‘morto’. Por isso é que afirmo que, tanto uma como outra reação, foi motivada por um individualismo, por um egoísmo.

Ficou clara nossa posição? Pergunto isso porque a abordagem desse tema (assassinato) é um elemento básico em nossas conversas…

Veja, todo mundo acredita em espírito, mas continua achando que a morte é horrível e, por isso repele o assassinato como elemento ‘não errado’ do Universo. Isso é algo que continuo achando engraçado: apesar de sempre falar para espíritas ou espiritualistas, ou seja, espíritos humanizados que acreditam na existência eterna, é só dizer que não há culpados que alguém me pergunta sobre o assassinato.

São espíritas, espiritualista, acreditam no espírito, mas ainda dão um valor imenso à vida carnal e, por isso, não aceitam que a ‘morte’ seja provocada por Deus através de instrumentos. Mas, se a vida é um dom de Deus só quem pode retirá-lo é o próprio Senhor. Isso é lógico, até mesmo para a razão humana…

Sendo assim, ninguém pode quebrar o dom de Deus. Então, seja porque forma alguém morra, não houve morte, mas foi o dom de Deus quem se encerrou. Por isso tenho sempre que lhe dizer foi o Pai que retirou o dom dele e nunca que um assassinato criado pela livre vontade de um ser humanizado que aconteceu.

Participante: Assassinato, suicídio são temas de difícil compreensão. O ‘Evangelho Segundo o Espiritismo’, por exemplo, deixa a impressão que alguém pode tirar a vida de outrem antes do tempo.

Em que passagem? Digo isso porque em ‘O Livro dos Espíritos’, como vimos, o texto é bem claro: Deus sabe de antemão o modo como um ser humanizado vai desencarnar.

Texto em debate, retirado de “O Evangelho Segundo o Espiritismo” de Alan Kardec, capítulo V – Bem-Aventurado os aflitos:

28. Um homem está agonizante, presa de cruéis sofrimentos. Sabe-se que seu estado é desesperador. Será lícito pouparem-se-lhe alguns instantes de angústias, apressando-se-lhe o fim?

Quem vos daria o direito de prejulgar os desígnios de Deus? Não pode ele conduzir o homem até a borda do fosso, para daí o retirar, a fim de fazê-lo voltar a si e alimentar idéias diversas das que tinha? Ainda que haja chegado ao último extremo um moribundo, ninguém pode afirmar com segurança que lhe seja soado a hora derradeira. A Ciência não se terá enganado nunca em suas previsões?

Sei bem haver casos que se podem, com razão, considerar desesperadores; mas, se não há nenhuma esperança fundada de um regresso definitivo à vida e à saúde, existe a possibilidade, atestada por inúmeros exemplos, de o doente, no momento mesmo de exalar o último suspiro, reanimar-se e recobrar por alguns instantes as faculdades! Pois bem: essa hora de graça, que lhe é concedida, pode ser-lhe de grande importância. Desconheceis as reflexões que seu Espírito poderá fazer nas convulsões da agonia e quantos tormentos lhe pode poupar um relâmpago de arrependimento.

O materialista, que apenas vê o corpo e em nenhuma conta tem a alam, é inapto a compreender o que se passa no além-túmulo, conhece o valor de um último pensamento. Minorai os derradeiros sofrimentos, quanto o puderes, mas, guardai-vos de abreviar a vida, ainda que de um minuto, porque esse minuto pode evitar muitas lágrimas no futuro – S. Luís. (Paris, 1860).

Veja bem, São Luís não fala em qualquer momento no texto que alguém pode morrer antes da hora, como você dá a entender na sua pergunta. Para entendermos o que ele diz, vamos repetir a pergunta do “Evangelho Segundo o Espiritismo”: “Um homem está agonizante, presa de cruéis sofrimentos. Sabe-se que seu estado é desesperador. Será lícito pouparem-se-lhe alguns instantes de angústias, apressando-se-lhe o fim”? Como resposta a esta pergunta temos, então, a seguinte resposta: não, não é lícito poupar-se alguns instantes de vida de um moribundo.

É isto que está sendo respondido e nesta resposta não há explicitamente nenhuma afirmação de que o fim pode ser abreviado. Por isso insisto: o fim jamais será abreviado. Ou seja, quando você ‘desligar a máquina’ não abreviou fim algum: o paciente morreu na hora que tinha que morrer.

No texto que você citou, São Luís não fala em momento algum que alguém ‘sai’ antes da hora da carne. O que ele fala é que você não deve ter a intenção de abreviar o fim. Além do mais há uma informação, que, aliás, existe em muitos outros textos do evangelho, mas que é esquecida constantemente: “Quem vos daria o direito de prejulgar os desígnios de Deus? Não pode ele conduzir o homem até a borda do fosso, para daí o retirar, a fim de fazê-lo voltar a si e alimentar idéias diversas das que tinha”

Por esta informação de São Luís podemos entender que Deus está comandando todo o processo do desencarne. Sendo assim, o fim também só acontecerá com um comando por Deus. E, creia, Deus não vai se submeter aos caprichos humanos, ou seja, provocar o desencarne porque o homem resolveu desligar a máquina.

Aliás Ele não se submeterá à própria máquina ou ao corpo físico que, pela visão humana que não leva em conta a Causa Primária de todas as coisas, agiriam por moto próprio causando o desencarne.

O fim acontece na hora que ele chega e pelo modo ou método que Deus conhecia e comandou. Isso quer dizer que se você desligar a máquina de alguém que está em coma não abreviou o fim: Deus comandou-o porquê chegou a hora e aquele tinha sido o gênero escolhido para o desencarne. É isso que está sendo dito nas entrelinhas desse texto.

Agora, a sua intenção de abreviar o fim e a sua imaginação de ter conseguido realizar tal ato, é outra coisa. Se você também achar que ele iria viver mais tempo se a máquina estivesse ligada, é outra coisa. Tudo isso é apenas imaginação, ou seja, construções racionais do ego que nada tem a ver com a Realidade. Como Krishna lhe diria: uma fantasia fantasmagórica.

Portanto, é isso que está sendo dito no texto: ninguém pode abreviar o fim. Por isso afirmo que o fim jamais poderá ocorrer em um momento diferente daquele que aconteceu. E, afirmo ainda, que ele chega dentro do gênero que Deus e o próprio espírito conheciam antes da própria encarnação.

Mas, porque cheguei a esta conclusão e você não? Porque apliquei ao presente texto um ensinamento anterior que está em “O Livro dos Espíritos” ao invés de analisá-lo com os conceitos humanos presentes no ego.

É preciso que nos lembremos sempre que o Pentateuco de Kardec é uma obra só e que, por isso, não pode ser contraditória. Além do mais, dentro da obra, “O Livro dos Espíritos” é anterior ao Evangelho e, por isso, os ensinamentos ali contidos devem servir de base para a interpretação dos textos restantes.

Veja bem. Quem compreende que neste texto São Luís quis afirmar que alguém pode desencarnar antes da hora, não conhece “O Livro dos Espíritos”. Basta apenas uma rápida olhada nas perguntas 01, 07 e 09, para compreendermos o que estou dizendo.

Na resposta a pergunta 01, a informação é de que Deus é a Causa Primária de todas as coisas. Ou seja, a origem de tudo. Ali não se fala que Ele causa primariamente algumas coisas e outras não. Sendo assim, Ele tem que ser o causador do desencarne.

Na resposta a pergunta 07, está afirmado que as propriedades dos elementos materiais não podem causar primariamente nada, pois senão, quem seria a causa destas propriedades? Sendo assim, a ação da máquina ou dos órgãos do corpo físico não podem ser o causador primário do desencarne, mas Deus é que faz isso aparentemente acontecer.

Já na resposta a pergunta 09, assim como no comentário de Kardec nesta mesma questão, encontramos que qualquer que seja a obra de uma inteligência existe sempre uma Inteligência Maior que comanda o funcionamento da menor. Sendo assim, o dedo que desliga a máquina não pode ter sido comandado por uma inteligência menor sem que a Inteligência Maior houvesse comandado anteriormente tal ação.

Agora leia de novo este texto e, com certeza, você verá que São Luís não afirma que o fim pode chegar antes da hora, mas que você deve resguardar-se da intenção de fazê-lo. Até porque essa intenção jamais chegará a termo.

Participante: Tem razão, é uma questão de interpretação…

Perfeito. Mas, para se interpretar algo não se pode fazê-lo a partir de nossos próprios conhecimentos (verdades) sem que corramos o risco de deturpar o que foi escrito.

Quando um ser humanizado interpreta um texto sagrado sem aliá-lo a conhecimentos anteriores, comete um crime, pois quer tornar-se o autor da obra, já que ‘escreve’ um livro diferente daquele que foi editado.

Participante: Então, o viver a vida e não acreditar em nada nem ninguém, inclusive em nossa própria mente, implica-se em interiorizar-se ao máximo e calar a mente?

Implica-se em interiorizar-se ao máximo para conhecimento da verdade que gerou determinada compreensão para o acontecimento, mas não quer dizer que você conseguirá ‘calar a mente’.

Isto porque o ego funciona por comando de Deus. É o Pai que cria o funcionamento do ego e faz isso para que o mundo interior (a compreensão dos acontecimentos da vida) do ser humanizado seja criado e , assim, ele possa ter a oportunidade da sua provação.

Então, você não pode calar a mente. Quem poderia seria Deus, mas isso ele não fará porque senão estaria desperdiçando oportunidades de elevação para Seu filho. O que você precisa fazer é libertar-se da ação da mente.

Sendo assim, ninguém conseguirá, por exemplo, fazer a mente parar de dizer que, sob determinados aspectos, ele foi ofendido. O que poderá fazer sim, é se libertar desta ‘razão’ criada pelo ego. Parafraseando Krishna o “Sábio” compreende isso e interpenetra nesta Realidade e por isso não tenta ‘mudar’ ou ‘calar’ a mente, mas aprende a conviver com ela recebendo as conclusões que formam a realidade do que está sendo vivido através da razão, sem acreditar nela.

Portanto, o que estou dizendo é diferente do que você está falando. Não é silenciar, calar, ou seja, não mais raciocinar ou ter pensamentos, pois isso acontecerá até o momento do desencarne ou até além disso: na vida errante vivida com a mesma personalidade de hoje. O que estou afirmando que precisa ser feito é estar viver-se ‘acima’ do que o ego diz que é real.

Participante: Ignorar o ego…

Exato. É uma boa palavra o ignorar.

Participante: Quando um sem terra, revoltado por não ter terra, quebra os espaços públicos, está agindo por individualismo, sendo um instrumento cármico ou as duas coisas ao mesmo tempo?

Podem acontecer as duas coisas ao mesmo tempo ou não.

Quando ele age quebrando está sendo um instrumento cármico. Agora, se quando ele participação desta ação dando asas ao seu prazer (“tenho que quebrar mesmo, tenho que me desforrar daqueles que nada fazem por mim e só pensam em roubar”), aí está sendo individualista além de ser instrumento cármico.

Eu costumo dizer que age assim é um cafetão, um gigolô: aquele que tira proveito individual do trabalho dos outros.. Quem tem prazer quando Deus faz determinado ato, é gigolô do Pai. Isto porque é Ele quem ‘trabalha’ e o ser humanizado se aproveita da Sua ação para ter prazer. Este ser humanizado é aquele que quer os frutos do trabalho de Deus para si.

Respondendo, então, a sua pergunta, pode haver as duas coisas. O ato em si não é individualista, mas cármico. No entanto, a reação que cada tem ao acontecimento, ou seja, com que sentimento vivencia o ato, é que determina se houve individualismo ou não.

Participante: Quer dizer que eu posso sair por aí ‘errando’?

Se você é espelho do outro jamais ‘errará’. Se a função espelho é comandada por Deus, pode ter certeza que a Inteligência Suprema jamais ‘errará’. .

Agora, enquanto a função espelho age de uma forma Perfeita, porque é fruto da Causa Primária de todas as coisas, o seu ego lhe diz que você ou o outro estão errados. Portanto, o valor ‘errado’ não está no que você faz, mas foi uma criação do seu ego.

[1] Pergunta 27a.

[2] Pergunta 132 – “visa ainda outro fim a encarnação: o de pôr o Espírito em condições de suportar a parte que lhe toca na obra da criação. Para executá-la é que, em cada mundo, toma o Espírito um instrumento, de harmonia com a matéria essencial desse mundo, a fim da aí cumprir, daquele ponto de vista, as ordens de Deus. É assim que, concorrendo para a obra geral, ele próprio se adianta”.

[3] Quanto à afirmação de Krishna sobre o fato do espírito não reencarnar, tal afirmação foi objeto de análise durante o estudo do Bhagavad Gita.