Conhece a ti mesmo – terceiro dia
Hoje, vamos voltar a falar sobre o ego e, com isso, terminaremos esta série de palestras. Mas, antes, vamos resumir o que foi falado até agora.
No primeiro dia definimos o ego como o criador de realidades ilusórias à qual o espírito se liga para vivenciar o que é chamado de encarnação. Vimos, ainda, que estas ilusões são formadas pelo ego em dois mundos: o mundo externo, ou dos objetos e animações, e o mundo interno, que é aquele que interpreta (dá valores) o mundo externo.
No segundo dia conversamos sobre as bases para a formação de um ego. Vimos que ele é abastecido por comandos específicos que existem em diversos ‘banco de dados’ universais e que estes comandos criam a ilusão de se estar vivendo em determinadas sociedades e regiões do planeta. Compreendemos, ainda, que, apesar das múltiplas utilidades destes comandos, todos são fundamentados no individualismo.
Por último, descobrimos no segundo dia que quem opera, ou seja, quem faz o programa criar a realidade virtual que o espírito agregado ao ego vive é Deus. Ele é quem opera os egos.
Em resumo, foi isto que vimos até aqui. Hoje iremos conversar sobre como aproveitar a oportunidade de estar ligado a um ego. Claro que usaremos tudo que falamos nos dois dias anteriores, mas abordaremos estes aspectos não mais tecnicamente, mas buscaremos a prática da elevação espiritual usando os conhecimentos já adquiridos.
Para que isso seja possível, gostaria de deixar um alerta. Queria, se possível, que todos tivessem a atenção redobrada. Por quê? Porque até agora tudo que conversamos foi técnica, foi ciência espiritual.
Definir o ego, explicá-lo, conhecer o seu funcionamento, é ciência espiritual, cujo conhecimento não lhe leva a nada. Saber tudo isso não lhe leva a realização espiritual alguma.
Tudo que existe no universo é instrumento para que o espírito se use dele. A posse de qualquer elemento não resolve nada no sentido da elevação espiritual. É preciso que haja uma determinada ação do espírito fundamentada naquilo que se aprende para que a encarnação pode ser aproveitada.
Por isso, se possível, gostaria que a atenção hoje fosse redobrada para que, além de conhecermos o ego, possamos saber utilizar este conhecimento para o objetivo de ‘estar vivo’.
Sei que muitos acham que ‘estar vivo’ é apenas respirar, mas é muito mais do que isso. Estar vivo é estar ligado a um ego, ter uma determinada personalidade.
Mas, para que você está vivo? Para que se uniu a uma determinada personalidade? Estas são perguntas que o ser humanizado esquece de fazer a si mesmo e, por isso, ‘vive a vida’ de uma forma material (buscando realizações materiais) e não espiritual.
A cultura espírita do planeta afirma que cada ser humanizado está vivo para promover a sua ‘reforma íntima’. E afirma mais: a promoção da reforma íntima ocorre quando você mata o homem velho e deixa surgir o homem novo. Vamos entender estes dois aspectos.
Reforma íntima: reforma do eu, do íntimo de cada um.
Quem é você no seu íntimo? Quem é você hoje no seu íntimo? Quem é o seu íntimo? O seu ego. Você é o ego porque, como já disse, você vivencia tudo que o ego diz como realidade. Desta forma afirmo: quem vive a vida é o ego e não você.
Reformar o íntimo é mudar o seu interior. Não se trata de mudar o ego, porque, como também já vimos, depois que o espírito programa o ‘criador de realidades’ ele não pode ser alterado. Reforma íntima, então, não se realiza alterando o ego, mudando valores, pois estes estão escritos no ego e continuarão sempre lá.
Reforma íntima é deixar de ser o ego. Reformar o seu interior é deixar de vivenciar o ego (as realidades, paixões e desejos) como você e voltar a ser o espírito que você é eternamente.
Na verdade quando se fala em matar o homem velho para nascer o novo, há um equívoco grande. Isto porque, neste processo, não nasce nem morre ninguém.
Na verdade, o homem velho (o ego) continua existindo até a libertação da matéria carnal, porque ele não acaba até à libertação, e não nascerá ninguém novo, pois você, o espírito, já existe desde sempre. O que acontecerá com a realização da reforma íntima é que o espírito ressurgirá, ou seja, você deixará de se auto reconhecer pela personalidade do ego e se reconhecerá a partir das suas verdades existentes na sua consciência espiritual.
Então, aí está o início do trabalho de hoje. Falaremos sobre reforma íntima, ou seja, falaremos como deixar de se ver como o ego e passar a viver a sua real identidade: a identidade espiritual.
Colocando os ensinamentos recebidos nos dois primeiros dias, ou seja, promovendo a reforma íntima, vocês voltarão às suas reais personalidades: as personalidades espirituais que vocês são.
É isso que conversaremos hoje.
Começando nossa conversa, então, podemos constatar que muito do que falamos estes dias é de conhecimento de religiosos. Os budistas, hindus e religiosos de outras seitas conhecem parte do que estudamos sobre o ego e o processo de reforma íntima através da ‘luta’ contra o ego.
Exatamente neste conhecimento, ou seja, na consciência de que é preciso se ‘lutar’ contra o ego, estes ensinamentos começam a deixar de ser reais. Isto porque ninguém pode lutar contra o ego sem perder todas as batalhas.
Contra o ego não se luta: se liberta.
Este é o primeiro detalhe que quero abordar hoje. A reforma íntima não é um trabalho de ‘lutar’ contra alguma coisa, nem de mudança nenhuma. A reforma íntima é um trabalho de libertação.
O espírito precisa libertar-se do ego e não derrotá-lo. Libertar-se no sentido de não ser mais o ego, de não ter o seu mundo externo criado pelo ego.
Quando me refiro a não ter o seu mundo externo criado pelo ego, não falo no sentido de acabar com as criações do ego para o mundo externo (os objetos e ilusões de ações), mas, e aí vem a grande ação da reforma íntima, em não acreditar nas compreensões que formam o mundo interno que o ego cria a partir do mundo externo.
Esse é a reforma do interior. O homem velho é aquele que acredita e vivencia aquilo que o ego cria como realidade, como verdade. O espírito que consegue aproveitar a encarnação para reformar-se é aquele que não acredita no mundo interno que o ego cria.
Dentro do exemplo que já usei nesta série de palestras, quando o ego cria no mundo externo uma mão bater no rosto e no interno a agressão, a humilhação, o ser que promove a reforma íntima não acredita nestes valores (agressão, humilhação) e não vivencia este sofrimento.
Este ser ligado à matéria densa é bombardeado pelo ego da mesma forma que aquele que ainda continua humanizado, ou seja, tem consciência do mundo interno como o ego cria, mas não acredita naquilo que lhe é dito e vivencia, então, a vida, sem estes valores. Ele, como o outro, ‘vê’ a mão atingir o rosto, recebe a informação que foi ‘agredido’, mas não acredita nesta informação e, por isso, não se deixa levar pelo ‘sentir-se agredido’.
Concluindo, então, o primeiro aspecto da conversa de hoje, afirmo que reforma íntima, não é trabalho de construção, mas de libertação. Este trabalho realiza-se vivendo completamente atento ao mundo interno que o ego gera para não se deixar levar pelas verdades e emoções ilusórias que lhe são criadas como provas e expiações.
Nota: Este ensinamento (viver atento ao mundo interno) encontra-se no ‘Nobre Caminho Óctuplo’ ensinado por Sidarta Gautama, o Buda, como ‘Atenção Plena Correta’.
Esse é o primeiro aspecto de hoje. Como aproveitar esta vida no sentido da elevação espiritual? Vivendo isoladamente do seu ego. Ele foi criado por você para que se libertasse dele, ou seja, para que tivesse, como provação, uma consciência deturpada da Realidade e se libertasse dela.
Participante: Poderia dar um exemplo concreto para entendermos melhor como fazer isso?
Poderia dar um exemplo concreto de um ato. O ego lhe diz que recentemente você viajou à Uberlândia: não acredite nisso. Apesar de você ter recebido toda ilusão da movimentação, não acredite.
O ego também lhe diz a reunião da qual você participou naquela cidade estava muito bonita. Para realizar a reforma íntima, não acredite nisso.
Poderia, ainda, lhe dar um exemplo de coisas não movimentadas criadas pelo, ou seja, de definições sobre você e os outros. O ego lhe diz que você é homem e que sua namorada é mulher, que você é médium, geógrafo, escritor: não acredite nisso.
Como eu disse ontem, todas estas concepções sobre você e sobre os outros são detalhes do programa que você escolheu para realizar suas provas. Se o ego lhe diz que você é homem e que sua namorada é mulher, na verdade, está propondo determinadas provas aos dois.
Isto porque para você ser homem e ser namorado, existe padrões que precisam ser atendidos, que precisam existir para que tudo esteja ‘certo’. Quando você acredita no que o ego diz, nas concepções sobre você e os outros que ele cria, passa a vivenciar subordinado a estas condições. Por esta subordinação cada vez mais você vai se identificando como o ego com o qual está ligado e, em contrapartida, abandona a sua essência espiritual.
Quando você não credita que é homem, mesmo recebendo esta informação do ego, não se sujeita a estes padrões. Neste momento alcançou a liberdade.
Quando você é homem, assume que é homem, não realiza nada. Isto porque todos os elementos da masculinidade são ilusões criadas pelo ego. Você como ser universal precisa, então, fazer o trabalho de espírito: libertar-se do ego que diz que você é homem.
Aí estão, portanto dois exemplos práticos do que falei até aqui: quer seja nas movimentações ou ilusões de ações que o ego cria, quer seja nas definições de caracteres sobre você e sobre o mundo que ele lhe faz, não acredite nele.
Voltando ao nosso estudo, concluímos que este é o trabalho da reforma íntima: você, bombardeado pelas informações do ego, não acreditar no que ele lhe diz, não vivenciar o que ele cria como realidade. Agora, como fazer isso?
A maioria não realiza o trabalho da reforma íntima porque diz que não sabe como fazê-lo, apesar de, pelo planeta, já haver passado diversos enviados de Deus que transmitiram os ensinamentos necessários para tanto. Falarei, então, com bastante calma os passos para se colocar em prática a libertação do ego.
Primeiro passo: ter a consciência de tudo que foi falado aqui nestes dias. Ou seja, conscientizar-se do que é o ego, da sua função, da criação do mundo externo e interno a partir dele, dos motivos pelos quais você representa determinados papéis na vida e que é Deus quem faz funcionar o programa do ego. Este é o primeiro passo.
Agora, reparem bem que falei em conscientizar-se e não em compreender os ensinamentos. Eu falei em ter consciência e não em entender como funcionam estes elementos universais.
O que vou falar agora é muito difícil de ser dito. Se não for muito bem compreendido pode lhe levar a abandonar tudo o que ouviu até aqui. Por favor, não me interprete mal.
As pessoas que dão palestras, que falam em público pretendendo ensinar alguma coisa, devem compreender melhor o que vou dizer agora, mas, mesmo quem nunca fez isso, pode entender o que vou dizer.
Quando um ser humanizado ‘ouve’ alguma coisa, tudo que for ouvido será raciocinado. Este raciocínio trata-se de um processo de comparação daquilo que é ouvido com elementos já existentes na memória, ou seja, com o que ele já sabe. Só a partir do raciocínio é que o ser humanizado ‘acredita’ ou não no que está ouvindo.
Mas o que será que determina o não acreditar? Quando não há lógica,não há razão, racionalidade. Ou seja, quando o que for dito não combinar com o que o ser humanizado já sabe. Se o que está sendo ouvido não combina com a lógica racional do ser humanizado ele, então, diz que não acredita.
Aí pergunto: de que adianta ouvir coisas novas se o parâmetro que será utilizado para julgá-las é a sua crença pré-existente, o que você já sabe? De que adianta buscar novidades se elas serão julgadas pelo que já existe na memória?
Aí está a diferença entre conscientizar-se do que conversamos nesses dias e tentar entender o que foi dito. Conscientizar-se é ter consciência, ter conhecimento, sem que necessariamente o que foi recebido como ensinamento tenha sido aceito racionalmente pelos parâmetros que você já possuía antes.
Volto a repetir: por favor, não me entendam mal. De nada adianta para você querer entender o que eu disse, pois isto lhe é impossível.
Primeiro porque, como estudamos, todo som que você capta é interpretado pelo seu ego. Desta forma, existe uma diferença imensa entre o que eu falo e o que você ouve.
Segundo: se você for quer julgar o que eu sei a partir do que sabe, perde tempo me ouvindo. Isto porque eu não vim aqui dizer ‘amém’ à sua cultura, mas despertá-lo do ‘sono ilusório’ que está vivendo.
Portanto, o primeiro passo para a reforma íntima que declaro como fundamental para a elevação espiritual é ouvir o que está ouvindo e acreditar naquilo que foi dito, mesmo que não tenha entendido, compreendido.
Mas, não pense que estou falando isso apenas para os ensinamentos que estou passando nesta série de palestras. Esta premissa para a reforma íntima vale para qualquer ensinamento que você receba dos amigos espirituais através de qualquer segmento religioso.
Não importa a que segmento religioso você esteja ligado, porque mestre mais se simpatize: seus ensinamentos são para serem seguidos e não compreendidos ou questionados.
Se Cristo ensina que o ser humanizado deve amealhar bens no céu, de nada se adianta perguntar por que, é preciso começar a abrir mão dos prazeres mundanos. Se Buda diz que é preciso desapegar-se de suas paixões, de nada adianta questionar de qual delas é preciso libertar-se: é preciso desapegar-se de todas. Se Krishna afirma que a equanimidade é o caminhar que leva a Deus, de nada adianta se indagar para que: é preciso libertar-se das emoções.
No entanto, o ser humanizado continua caminhando sobre o planeta sempre perguntando por que, como, quando, onde e para que. Na verdade quem faz isso é o ego, comandado por Deus, para testá-lo. Para ver se você se prende àquilo que o ego lhe diz o ‘endeusa’.
Quem precisa primeiro compreender, entender, aceitar, para só depois colocar em prática o ensinamento do mestre, mentor ou guru ao qual se liga são como os judeus que idolatravam o ‘bezerro de ouro’ quando do retorno de Moisés depois de receber as tábuas das leis.
Fé, confiança, entrega: é disso que estou falando aqui. Sem confiança absoluta e irrestrita que leve a uma entrega absoluta ao ensinamento de um mestre, mentor ou guru que o espírito humanizado siga nada pode ser conseguido.
Quando o ensinamento só é colocado em prática depois que passa pelo ‘crivo da sua razão’, ou seja, só depois que ele foi analisado e julgado como ‘correto’, a confiança não está em quem ensinou, mas no ego. Quem precisa primeiro avaliar e analisar para, só depois de concordar, realizar, está entregando-se ao ego e não a Deus.
Nenhum espírito vem ao mundo ilusório da vida carnal para brincar, dominar ou criar um movimento para seu próprio prazer. Todo espírito vem ao planeta para o trabalho espiritual de trazer informações necessárias para a elevação espiritual, para ajudar os encarnados a realizarem suas provações. Aí os seres humanizados ficam julgando o que é ensinado a partir de sua restrita visão da Realidade.
Como eu disse não me entendam mal. Não estou querendo ser presunçoso, mas ensinar o caminho que leva à realização da reforma íntima. Sem a confiança em mim ou em qualquer mentor ao qual se ligue, sem a entrega àquilo que é ensinado e a partir destes dois aspectos, aceitar, crer no que é dito sem que seja preciso gerar uma razão, uma racionalidade, uma lógica racional, vocês não fazem nada, não realizam reforma íntima alguma.
É por isso que, carmaticamente, tem muito espírito vivendo a vida ilusória ‘pulando de galho em galho’, ou seja, mudando constantemente de religião ou orientação espiritual.
Sempre que o que é dito ou acontece dentro de determinado templo e que desagrada às verdades do ego do ser humanizado, este procura outra que mais se adapte ao que ele ‘acha’ das coisas. Diz que está procurando Deus, mas na verdade busca encontrar um lugar onde os ensinamentos combinem com aquilo que ele ‘sabe’.
Este, portanto, é o primeiro aspecto que deve ser levado em consideração por aquele que quer realizar a reforma íntima. E é um dos mais importantes, pois é por esse aspecto que a maioria não consegue. Isto porque quer entender, criar uma cultura para si, quando elevação espiritual não é cultura, mas amor e fé como já ensinou o apóstolo Paulo.
Se você tem fé em meu ensinamento, então o ponto de partida para a sua elevação espiritual é reler tudo o que falamos e atentar a cada ensinamento para poder colocá-lo em prática. Não estou falando em reler para compreender, mas sim ler e acreditando que aquilo que foi falado é Real, mesmo que não tenha compreendido.
Se você não confia em mim, então o seu ponto de partida é abandonar tudo o que disse e buscar os ensinamentos nos quais tem confiança e executá-los, sem questionamentos. Não importa a doutrina religiosa que você siga é isto que precisa ser feito, pois, como ensinou Cristo, há muitas moradas na casa de meu Pai.
Pratique o que já sabe, coloque como base da sua vida o ensinamento que recebeu de quem confia, pois não importa qual seja, se você colocá-lo em prática, chegará a Deus.
Desculpem, volto a repetir, não me entendam mal. Não achem que estou querendo formar seguidores que sejam cegos. Até se fosse isso seria bom, pois Cristo disse que o cego é quem vê espiritualmente enquanto que o que quer enxergar é cego.
Aqui no grupo tem pessoas que me conhecem e sabem que nunca liguei se havia ou não uma grande platéia. Já fiz, inclusive, palestras neste grupo incitando pessoas a não vir mais aqui, pois elas já tinham recebido todo ensinamento necessário para a sua obra.
Apesar disso, tenho que insistir neste ponto, pois esta fé ou confiança mútua entre você e quem segue precisa existir. Se você não confia no que eu ou qualquer outro diz, mas só no que entende, para que ouvir?
Agora quanto àquilo que conversamos nestes, tudo que dissemos está nos ensinamentos de Krishna, Buda, Cristo, Lao-Tsé, do Espírito da Verdade e do Anjo Gabriel através de Maomé. Sendo assim, não estou dizendo nada de meu, mas reproduzindo o que os mestres disseram.
Estes ensinamentos podem não fazer parte das doutrinas religiosas, mas não contrariam uma linha que tenha sido ensinada pelos mestres. É por isso que digo que podem confiar no que estou falando, mesmo que não compreendam ou que a doutrina religiosa criada sobre as transmissões de determinado mestre não expliquem desse jeito. Afinal de contas o que é uma doutrina religiosa senão uma realidade virtual?
Mais uma vez peço desculpas, mas isto precisava ser falado um dia.
Durante todo o ‘mundo de regeneração’ espíritos mensageiros do Senhor vieram à esta vida ilusória, ligados à egos humanos ou desencarnados para ensinar a promover a reforma íntima, mas as pessoas continuam afirmando: ‘eu não sei fazer…’
Por que não sabe? Porque quer compreender o que é incompreensível para um ser humanizado ou quer escolher o que realizar e o que não realizar dos ensinamentos.
Este, portanto, é o primeiro aspecto para quem quer realizar a reforma íntima. Existem outros, mas este é o primeiro, o primordial.
Conscientizar-se de todos os ensinamentos que recebeu até hoje sem procurar entendê-los, sem questioná-los, é o ponto de partida de qualquer ser humanizado que queira realmente promover a sua reforma íntima. É preciso ‘trabalhar’ as informações no sentido do caminhar para Deus que fazem parte do seu ego como verdades e não querer mudá-las, alterá-las ou usar delas o que lhe interessa e esquecer o que não interessa.
Volto a repetir não me levem a mal. Não é desabafo, briga ou busca de dominação, mas simplesmente uma orientação de um preto velho.
Participante: Estranho este seu comentário…
Não é estranho: é a seriedade do momento que o exige.
A época que vivenciam os espíritos que estão ‘encarnados’ na vida ilusória do planeta Terra pede que sejamos totalmente francos. O momento presente pede esta informação.
Já não há mais condições de ficarmos presos ao culto aos mestres, mentores ou gurus vivenciando apenas a compreensão que cada um cria de seus ensinamentos a partir do que quer entender, da forma que quer compreender e na hora que ‘interessa’ saber. É preciso, além de cultuá-los, praticar o que eles praticaram quando ligados a egos.
Além do mais, comentamos aqui que não é você que está compreendendo nada, mas sim o ego. É ele que está interpretando e usando a compreensão do jeito que ‘quer’, ou melhor, do jeito que precisa fazer para criar ilusões. Falamos também que você precisa se libertar do ego e, se isso é verdade, é preciso ser claro em dizer que você não deve buscar compreender nada.
Então não é estranho o que disse: é decorrência natural do próprio estudo. Porque estudamos que tudo que lhe vem à mente, todo processo de raciocínio através de idéias, imagens, é fruto do ego.
Então, o que foi dito agora, é simplesmente decorrência natural de tudo que conversamos nestes dois dias.
Participante: Eu não compreendi uma coisa. Nós não devemos acreditar no que o ego me diz a não ser neste conhecimento que estamos tendo através do senhor. É isso?
Não. Você não deve acreditar em nada e isso inclui o que está compreendendo de tudo o que eu falei.
Participante: Mas você acabou de abordar a questão da confiança, do crer sem compreender…
O que falei nestes três dias , em resumo, foi: tudo que vem à sua consciência é fruto da criação do seu ego. Isto é Verdade e não porque eu falei, mas porque os mestres ensinaram assim.
A partir da conscientização desta Verdade que é universal, pois foi ensinada por todos os mestres, gera-se a necessidade de se libertar de tudo, inclusive das compreensões que foi formando ao longo destes dias.
Vou repetir para ficar bem claro que não estou querendo ser o ‘certo’, o único que conhece a Verdade. Você precisa se conscientizar de tudo o que falamos. E, o que falamos? Que toda compreensão que lhe vem à mente é fruto do ego. Então, liberte-se de toda compreensão e não apenas de parte dela,.
Aliás não é a primeira vez que digo isso. Já conversamos anteriormente sobre este assunto e você, tanto daquela vez como desta, está recebendo do seu ego um raciocínio que afirma que estou querendo dizer que você deve acreditar no que eu digo e em mais ninguém. Mas não é isso.
O que quero é que acredite que deve desacreditar de tudo, inclusive do que eu ensino. Quando você se conscientizar de tudo o que foi dito ontem, anteontem e hoje não sobrará nada para você acreditar, nem o que foi dito nestes dias.
É isso que falei agora. É preciso você se conscientizar de que não há nada a se apegar. Não há um fio de cabelo em que possa acreditar piamente nele.
Os mestres foram categóricos: no mundo material não há uma única corda na qual o ser humanizado possa se segurar. Nem os ensinamentos podem servir de corda para você se apoiar, pois um dia eles também terão que ser suplantados;.
A conscientização de tudo o que foi dito nestes três dias leva a isso.
No entanto, este não crer não pode se transformar numa crença para você, ou seja, tem que acreditar que não deve crer em nada. Isto porque se quiser entender que tem que não acreditar, não entende nada, e, ao viver assim, não consegue fazer.
Então veja, a única coisa que ensino (e como já disse não estou inventando nada, mas reproduzindo o que os mestres ensinaram), é não acredite nada. Nem em mim.
Participante: Conscientizar-se é saber que é assim, sem procurar saber como funciona, já que não temos parâmetros para entender o processo de funcionamento?
Exatamente. Saber que você não saberá como se libertar: esta é a única coisa que deve lhe ficar claro.
Saber que não saberá como funciona o libertar-se, mas saber que tudo que você acredita é fruto do ego.
Participante: Hoje o ego falou alto e claro. Eu assisto, mas fico pisando lá e cá. Observo o que acontece como alguém vendo um filme, mas é depois de sentir ou quando estou sentindo. Ontem e hoje foram dias muito movimentados nesse sentido.
Boa pergunta e isso vai ilustrar ainda mais o que falei acima: você não pode acreditar que precisa nada compreender.
Veja, você já consegue em determinados momentos compreender que é o ego falando e em outro não. Isto é muito bom, mas não exija mais, ou seja, não queira conseguir sempre.
Se não conseguiu não conseguiu: ponto final. Viva naturalmente sem esforços imensos, obsessões, pois como Cristo ensinou, venha para mim que o meu jugo é leve.
Tornando a busca da elevação espiritual numa obsessão (tenho que conseguir) nada conseguirá. Estará apenas trocando uma verdade ilusória (tenho que rezar, por exemplo) por outra. Além disso, acreditando que tem que conseguir sempre, criará o lamento de não ter conseguido em determinado momento.
Veja bem. Quando não consegue libertar-se da influência do ego é um momento, uma provação; quando está lamentando que não conseguiu é outro. Se não fez no primeiro, também não fez no segundo, pois estava presa ao ego que lhe dizia que tinha que fazer. Na verdade, acabou perdendo dois momentos, duas provações, ao invés de uma porque aceitou a obrigação que o ego gerou a partir do que eu disse.
Sendo assim, não tente entender porque não conseguiu da primeira vez; faça agora: não aceite a imposição que o ego está lhe fazendo vivenciar como realidade.
É isso que estou falando em se conscientizar. É ter a certeza que cada um momento é um momento para não acreditar no que o ego está dizendo.
Se o ego diz que você não conseguiu em determinado momento, não acredite nisso. Na verdade você não sabe se conseguiu ou não, pois estava desatenta lá.
A conscientização que afirmei ser necessária para a reforma íntima é exatamente o que disseram acima: a convicção de que não se tem a capacidade de saber o que é ‘certo’ ou ‘errado’, e aí entregar-se. A que? A nada.
Quem quer aproximar-se de Deus precisa libertar-se do ego e entregar-se a nada. Não é integrar-se a um ensinamento, a uma doutrina, a uma compreensão, mas conscientizar-se de que o ensinamento é nada saber e, a partir daí, não saber nada, inclusive o próprio ensinamento.
Quando o ego lhe disser que hoje foi um dia tumultuado, não acreditar nisso. Isto porque você não conhece os elementos da vida, ou seja, não sabe o que é dia, o que é ser tumultuado, etc. Quando o ego lhe disser que o dia foi gostoso, pleno de realizações, também diga a ele que não sabe se foi ou não. Isto porque você nada sabe.
Tem uma frase que eu uso muito e que se encaixa perfeitamente no que estamos falando: da sua declaração de expressa incompetência para viver a vida material nasce a sua competência para ser um espírito.
É isso que estou falando: não saiba de nada, para poder, depois, saber tudo.
Participante: E no mundo espiritual, como viver como espírito sem acreditar em nada?
Para início de resposta, veja a ação do ego querendo compreender alguma coisa, ou seja, criar uma verdade. Estamos falando de vida carnal e seu ego já está buscando amealhar cultura querendo saber como é viver dentro do ensinamento na vida espiritual.
Isso é impossível para você, pois seu ego não possui comandos que criem dentro da perfeição os elementos do mundo invisível.
Por isso, no Evangelho de Tomé, há a seguinte logia: “Os discípulos disseram a Jesus: diz-nos como será nosso fim. Jesus lhes disse: descobristes então o princípio para que possais perguntar sobre o fim? Bendito aquele que se mantiver no princípio, pois que não provará da morte” (logia 18).
Se você não sabe como começou tudo isso, ou seja, como você passou a existir dentro desta identidade, como quer saber como acabará? Se você nada conhece sobre o mundo espiritual, como quer saber como é lá?
O que você conhece do mundo espiritual é o que seu ego diz que é e não a realidade. No Livro dos Espíritos, o Espírito da Verdade sempre que vai responder a alguma questão sobre ‘como’ é alguma coisa espiritual ele diz assim: vou fazer uma comparação, não é bem isso, mas serve para o entendimento, etc.
Se isso é Verdade, como então quer compreender como é viver lá?
Voltamos ao ensinamento: é preciso não querer saber nada. Quando chegar lá você verá, mas não com o ego ao qual está ligado hoje, mas de posse da sua consciência espiritual que pode gerar a Realidade que está acontecendo. Enquanto isso, não se preocupe com isso, pois se agir assim, você criará novas verdades e se manterá preso a elas.
Só isso que posso lhe responder sem comprometer o que estamos estudando hoje.
Participante: Ser espírito é ser feliz incondicionalmente, com turbulência ou não na vida humanizada.
Não, a felicidade universal não pode ser criada, ou seja, não pode nascer de uma compreensão racional.
Ser espírito não é ser feliz, isto porque você não pode ser feliz, não pode criar uma felicidade. Você precisa sentir a felicidade sem que ela nasça de uma condicionalidade, sem que seja criada a partir de um determinado aspecto.
A felicidade que o espírito sente não pode ser criada a partir de elementos lógicos. A felicidade assim criada não é incondicional, mesmo que a lógica usada para que ela passasse a existir pareça ilógica para a maioria da humanidade.
Ser espírito é ser espírito: a felicidade decorre desta condição. Quando você coloca como fez na sua pergunta (ser espírito é ser feliz incondicionalmente, com turbulência ou não na vida humanizada), criou condições para ter a felicidade: ser espírito e ser feliz incondicionalmente.
Esta felicidade não é mais incondicional. Seja feliz se for espírito ou não; seja feliz, incondicionalmente ou não. Ou seja, se você agir espiritualmente seja feliz, se agir humanamente, também; se conseguir libertar-se da condicionalidade para ser feliz, seja, mas se ainda for feliz quando os seus desejos forem satisfeitos, seja.
A felicidade tem que ser completamente incondicional para ser Real. Para tanto ela não pode nem ser condicionada à incondicionalidade.
Por isso disse que sua afirmativa não está de acordo com a visão espiritualista que estamos conversando, apesar de você ter usado para compô-la um ensinamento que já ouviu de mim em algumas outras palestras. Sei que esperava por isso que eu confirmasse o que disse, mas, na verdade, você nunca compreendeu o que foi dito até aqui.
Antes de ficar magoado com o que disse, lembre-se: é o ego que cria as compreensões e não você que entende. Ao criá-las ele engendra de tal forma a ‘razão’ para que surja uma compreensão, que se transforma em uma verdade e que lhe leva sempre a acreditar em alguma coisa.
No ensinamento utilizado nesta sua pergunta (ser feliz incondicionalmente) o seu ego engendrou durante o raciocínio uma condição para que você não vivesse a verdadeira felicidade: a incondicionalidade. Ele estabeleceu como condição para a felicidade universal a incondicionalidade.
Quando transmiti o ensinamento não coloquei a incondicionalidade como uma condição para que você vivesse a verdadeira felicidade. Disse apenas que deve ser feliz incondicionalmente, ou seja, sem qualquer condição. O que quis ensinar foi: seja feliz libertando-se das condições que utiliza atualmente para tanto ou não. É diferente do que você entendeu, ou melhor, da compreensão que o seu ego criou.
Na sua compreensão precisa haver a incondicionalidade para ser feliz.. A partir daí, posso afirmar que quando a incondicionalidade não acontece, jamais poderá haver a felicidade. Ou seja, você sofre quando não consegue ser feliz incondicionalmente e sente o prazer de ter posto em prática o ensinamento quando consegue manter-se feliz nas turbulências da vida.
Foi para poder lhe manter preso neste dualismo do prazer e da dor que o ego transformou racionalmente a incondicionalidade numa condição.
Sei que a felicidade incondicional não é o tema desta conversa, mas explorei o assunto para que vocês pudessem ‘ver’ algo que está relacionado com o ego: repare que qualquer compreensão que a mente cria se transforma numa condicionalidade que impede a Verdadeira Felicidade, mesmo que esta compreensão seja sobre os ensinamentos que estamos transmitindo.
Por isso disse antes: não acredite em nenhuma compreensão formada pelo ego, mesmo que seja a partir dos ensinamentos que estou passando. Viva o nada, duvide de tudo que lhe seja real, pois só assim você poderá atingir a felicidade que Deus tem prometido a todos os seus filhos.
Desta forma, o primeiro trabalho necessário para a reforma íntima é você se conscientizar do que é ensinado, sem buscar compreender aquilo que é dito. Vamos, agora, ao segundo trabalho: não acreditar em nada que o ego lhe diz.
Pode parecer que há entre o primeiro e o segundo trabalho uma redundância, mas não é bem assim. A partir do momento que você se conscientiza de que não pode acreditar em nada que o ego diz, é preciso que você não acredite em nada que o ego diz, ou seja, aja a partir da conscientização.
É este o segundo trabalho necessário para quem pretende promover a reforma íntima: viver sem acreditar em nada que o ego diz. Por que jamais podemos acreditar no ego?
Como disse, o ‘criador de realidades’ está constantemente operando, ou seja, criando novas ilusões que ele rotula como verdades. Apesar de ilusórias, estas ‘verdades‘ criadas pelo ego parecerão lógicas, racionais. Perdido na ilusão de que aquilo que o ego criou é real, você vive de uma forma material a encarnação, sem aproveitá-la para a realização espiritual.
Foi exatamente o que acabou de acontecer na última pergunta (ser espírito é ser feliz incondicionalmente, com turbulência ou não na vida humanizada).
Um ego, trabalhando informações novas que foram ouvidas, formulou uma verdade: ser espírito é ser feliz. No momento da pergunta este ego colocou a verdade ilusória que já estava na ‘memória’ e criou a ilusão do som, do proferir palavras.
O espírito ligado a esta identidade, por não entender que era o ego que estava ‘falando’, mas achar que ele se lembrou do que havia dito anteriormente e que ele formulou a pergunta, acreditou que estava ‘certo’ no que estava dizendo. Mas, como vimos, não foi bem assim…
Nunca se esqueça: o ego pegará tudo o que você ouvir e criará uma lógica, uma razão, que transformará o que foi ouvido em uma realidade. Fará isso para que você se ‘prenda’ (acredite) no que foi ‘compreendido’ (tornado racional) e, assim, o ego possa dualizar (‘certo/errado’, ‘bom/mal’, ‘bonito/feio’) os acontecimentos da vida material, mantendo-o preso às vicissitudes emocionais: prazer e dor.
Desta forma, não importa quem lhe diga qualquer coisa, compreenda que não foi a pessoa que lhe disse aquilo, mas o seu ego é que criou esta ilusória compreensão para que lhe prender no dualismo e no ciclo emocional material (prazer/dor). A partir do momento que você se conscientizar deste ensinamento, conscientize-se também de que precisa se libertar de tudo.
Agora, um grande detalhe: tudo é tudo. O ser humanizado não pode identificar algumas coisas para se libertar e ter outras das quais imagina que não precisa se libertar. Tudo é qualquer coisa que exista.
Quando falamos que o segundo trabalho necessário para aquele que pretende promover a reforma íntima é libertar-se das verdades formadas pelo ego, estamos falando de desacreditar de tudo, de todas as coisas. O problema é que existem pessoas que buscam apenas libertar-se daquilo que não gostam ou daquilo que não é espiritualmente correto segundo a humanidade.
Como diz o apóstolo Paulo, ‘quando o corpo mortal se vestir com o que é imortal e quando o que morre se vestir com o que não pode morrer, então acontecerá o que as Escrituras Sagradas dizem: a morte está destruída. A vitória é total!’ Se não podemos compreender o que é imortal (espiritual), pois nos faltam elementos para tal compreensão, pelo menos podemos nos despir do que é mortal, ou seja, de tudo aquilo que o ego cria como real.
Na execução destes dois trabalhos que conversamos até aqui, estão as maiores causas do fracasso do aproveitamento da encarnação como instrumento da elevação espiritual pelos espíritos.
Primeiro porque querem entender como viver espiritualmente e isto jamais um ser escravizado ao ego conseguirá. Já tinha dito anteriormente: não existe um doutor em ego que tenho ego, senão o ego seria o doutor e não o espírito. Segundo porque querem compreender do que se libertar e, com isso, acabam se ‘prendendo’ (reforçando a crença na compreensão) cada vez mais.
Resumindo, sabe por que é tão difícil a um espírito sair da sansara? Porque primeiro quer ‘saber’ (conhecer, entender, ser sábio culturalmente) como evoluir e, quando descobre como fazer, ao invés de executar o trabalho na totalidade, quer escolher do que se libertar.
Mas, quem escolherá do que se libertar? Você? Não, o ego é que escolherá do que separar, já que a escolha será racional.
Como disse anteriormente, o ego é como um general que espalha o seu exército na frente de batalha. Como todo bom estrategista, ele pode, quando preciso, entregar alguns soldados ou até um batalhão inteiro ao martírio para se poupar. Faz isso porque sabe que combatentes não lhe faltam, pois ele está sempre criando novos soldados e colocando-os na frente de batalha sem que você se dê conta disso.
Participante: E os instintos de sobrevivência (sentir fome, necessidades fisiológicas) existem ou são criações do ego?
Criações do ego.
O espírito que vive a sua essência, mesmo ligado ao ego, não tem fome nem necessidade fisiológica. Agora, quem é subordinado ao ego tem vontade de ir ao banheiro.
Isto não quer dizer que quem viva a sua essência espiritual não tenha atividades fisiológicas… Ele tem a atividade, não a necessidade.
Quem compreende a ação do ego vai ao banheiro na hora que estiver indo, sem se preocupar anteriormente se irá ou não, se terá vontade ou não.
Vamos, então, ao terceiro trabalho do postulante da reforma íntima. Antes, porém, recapitulando: primeiro, precisamos acreditar que é este o trabalho, mesmo sem compreendê-lo; segundo, libertar-se de todas as verdades criadas pelo ego sem exceção.
Terceiro trabalho: não deixar o ego criar coisas novas.
Anteriormente falamos em libertar-se do que já se sabe; agora dizemos que você não deve deixar o ego criar coisas novas, ou seja, não deixar o ego criar novas verdades ou novas definições. Vamos entender mais este ‘trabalho’ que o espírito deve realizar durante a encarnação.
Como disse anteriormente, o trabalho da elevação espiritual se caracteriza em não ‘aceitar’ a compreensão que o ego lhe dá a partir do que eu falo ou o que qualquer outra pessoa diz. Por isto, é importante sempre evitar a criação de novas verdades a partir daquilo que se ouve.
Sem este trabalho de contenção de formação de novas verdades de nada adianta a luta contra o ego. Isto porque o ego estará sempre criando novas verdades contra as quais certamente você terá que lutar para libertar-se amanhã.
No Bhagavata Puranas, livro védico que estamos estudando no trabalho do Senhor da mente, Krishna fala assim: o verdadeiro sábio não tem outro receptáculo para a comida que não a barriga.
Raciocinando este ensinamento fixando-se no sentido alimentação, os outros receptáculos para comida que o mestre diz que o verdadeiro sábio não tem são os potes onde os seres humanizados armazenam comida para comer em outro dia. Podemos, então, entender que Krishna diz que o verdadeiro sábio não armazena nada.
Levando este ensinamento para a intenção desta conversa (o ego), podemos entender que o verdadeiro sábio, além de ‘trabalhar’ diuturnamente na ação do ego para não acreditar no que ele ‘diz’, deve, também, ‘trabalhar’ para que ele não forme novas idéias e armazene-as na memória. Ou seja, é preciso que o ser humanizado elimine a ‘verdade’ também na criação e não apenas quando ela for utilizada para que possa se tornar um verdadeiro sábio.
Se agirmos assim o que acontecerá? Novas verdades não se formarão e o ego não conseguirá mais gerar ilusões. Já me pediram anteriormente e, antes que o façam novamente, deixe-me colocar o ensinamento de uma forma mais prática.
Com certeza você já visitou um lugar que não conhecia. Nesta visita digamos que você esteve pela primeira vez em uma residência que não conhecia. Com certeza se lhe pedisse para descrever essa casa, você seria capaz fazê-lo, não? Por quê?
Porque o ego criou imagens e você as aceitou como reais, como realidades. A partir desta ‘aceitação’ as imagens que descrevem o ambiente foram arquivadas na memória e criou-se um ‘conceito’: uma verdade sobre aquele lugar.
Até aqui não haveria problemas com relação à elevação espiritual, pois crer em uma descrição ilusória criada pelo ego não é tão ‘comprometedor’ para quem pretende realizar a reforma íntima. Mas, não foram apenas as imagens do lugar que o ego levou à racionalidade, mas também uma ‘adjetivação’. Compreendamos melhor…
Junto com a imagem do quadro na parede veio o adjetivo ‘bonito’; com a sensação de estar sentado no sofá veio a classificação de ‘desconfortável’; com a imagem dos móveis da sala a sentença de ‘sujos’. Enfim, além das imagens o ego determinou valores às coisas.
Acreditar nestes valores, vivê-los como reais, é ‘comprometedor’ no sentido da elevação espiritual, pois eles nascem de um julgamento a partir de valores individualistas. Aquele que aceita estes valores que o ego cria em conjunto com as imagens e os vivencia como realidades quebra o amor que deve existir entre todos os filhos de Deus.
Este ‘desamor’ pode ser muito melhor compreendido se alterarmos as imagens percebidas: ao invés de objetos, uma pessoa é percebida. Sempre que você se relaciona com alguém, além das imagens do momento, o ego ‘conclui’ valores do relacionamento e arquiva na memória.
Digamos, por exemplo que o seu ego lhe diz que aquela pessoa é ‘chata’. Quando você ‘aceita’ esta definição ela é arquivada na memória. A partir daí, cada vez que esta pessoa for percebida o ego trará novamente à consciência esta definição.
Só neste ‘julgamento’ o ‘desamor’ está provado, mas a ação do ego vai além. Mais do que lhe trazer à consciência q verdade de que aquela é uma pessoa ‘chata’, o ego irá criar o desejo de afastar-se dela.
Porém, digamos que isto não tenha sido programado como ilusão de ação para aquele momento, ou seja, que você não consiga afastar-se da pessoa. O que acontecerá? Você terá que ficar perto dela sofrendo (chateado, amolado, etc.).
Por que sofreu? Por estar frente a ‘alguém chato’ e ‘não conseguir livrar-se’ dele? Não, sofreu porque deixou o ego armazenar na memória a adjetivação sobre aquela ‘pessoa’. Se isso não houvesse acontecido esta pessoa jamais seria ‘chata’ e você nunca se ‘chatearia’ ao vivenciar a ilusão da ação de estar relacionando-se com ela.
Resumindo, então, as primeiras três etapas do trabalho da elevação espiritual: primeiro, conscientizar-se de que tem que fazer o que lhe é ensinado, compreendendo ou não, aceitando ou não os ensinamentos; segundo, fazer ou seja, libertar-se das verdades; terceiro: não deixar o ego criar verdades novas, armazenar conceitos
Todos os três trabalhos precisam ser executados simultaneamente, pois, caso você execute apenas os dois primeiros sem se atentar para o terceiro, será uma luta inglória porque, amanhã, sempre haverá uma nova verdade da qual terá que libertar-se.
Participante: O problema no tocante à elevação espiritual que o senhor se refere é o sofrimento que advém da falta de consciência da ação do ego?
O problema é acreditar no ego porque tudo que ele fala racionalmente é ilusão, mentira, falsa realidade, baseada no que você programou. Além disso, é problemático você vivenciar como suas as emoções ou sensações que o ego lhe dá, já que elas estarão sempre vinculadas ao prazer e a dor.
Aí está o problema para quem quer elevar-se espiritualmente: acreditar racional e emocionalmente no ego. Mas, porque isso é problema?
Porque quando você acredita no ego, não crê em Deus. O ego é o ‘bezerro de ouro’ que Moisés encontrou os homens adorando, o falso ídolo. E se ele é aquilo que você chama de ser humano, este elemento é o falso ídolo a quem você presta as suas homenagens, a quem idolatra acima de tudo e de todo, ferindo o primeiro mandamento da lei de Deus.
Veja se o que estou afirmando (idolatria a si mesmo) não é verdade…
O ser humanizado se idolatra ao ponto de achar que está sempre ‘certo’, mesmo quando se acha ‘errado’…
Idolatra-se ao ponto de dizer que o outro ‘não sabe o que está falando’ e que só ele sabe o que é ‘certo’…
Cultua-se ao ponto de dizer que o outro está lhe ferindo magoando, só porque não faz o que ele acha que deveria ser feito…
Portanto, acreditar no ego racional e emocionalmente fere à primeira lei de Deus.
Voltemos aos nossos ‘trabalhos’ para a promoção da reforma íntima. Já falamos de três (conscientizar-se dos ensinamentos, não acreditar no ego e eliminar a formação de novas convicções) e agora abordaremos o quarto e último aspecto.
Este ‘trabalho’ pode, à primeira vista, parecer que já é executado por vocês, mas isso é uma ilusão do ego. O quarto ‘trabalho que compõe a ‘reforma íntima’ é: ‘viver a vida’.
Mas, eu já vivo a minha vida, dirão vocês, mas isso é uma mentira. O ser humanizado não vive a sua vida, mas sim o que o ego diz para ele viver. Vocês vivenciam os seus ‘mundos internos’ criados pelo ego e não a vida realmente.
No exemplo que usei anteriormente (a mão encostando no rosto) a ilusão de movimentação é a vida, mas vocês vivem a agressão, a dor e a humilhação que o ego cria. Viver a vida é vivenciar as ações ilusórias sem anexar a elas nenhuma compreensão ou emoção.
Este exemplo, no entanto, não é propício para o entendimento, pois a simples menção a uma ação desse tipo já faz com que vocês vivam o ‘não querer’ passar por esta situação que está sendo criada agora pelos seus egos. Por isso, vamos citar um outro exemplo.
Você tem um filho e diz que vive com ele, mas isso é mentira. Você vive com a responsabilidade, a preocupação e a chateação de ser ‘mãe’. Ao invés de ‘curtir’ seu ‘filho’, você vive presa a tudo que o ego cria.
Quando deixar de viver o que o ego diz para você viver, só lhe restará uma coisa: viver a criação de Deus.
Lembram que comentamos que o mundo externo é criado por Deus para que a provação aconteça? Pois então, quem vive o mundo interno como real não vivencia a criação de Deus, mas a do ego. Não vive com e para Deus, mas para o ego. Por isso disse anteriormente que o ego é o ‘bezerro de ouro’ que os seres humanizados preferem idolatrar ao invés do Senhor Supremo.
É só o ego ‘abrir a boca’ e vocês abandonam Deus na mesma hora. Se ele diz que vocês têm que ganhar dinheiro através de um emprego, já não encontram mais tempo para trabalhar as suas espiritualizações. Não estou falando em religiosidade, em freqüentar cultos, mas em ser feliz incondicionalmente, que já citamos anteriormente como estado daquele que é espiritualizado.
Vivenciando o mundo interno como real, sai ‘correndo’ de casa todo dia vivendo um estado de espírito de ansiedade e nervosismo porque acredita quando o ego diz que existe horário e que você está atrasado. Quanta ‘vida’ (criação de Deus) você perdeu no trajeto da sua casa até o trabalho por estar obcecado com a idéia que o ego deu?
Afirma que gostaria de ter uma vida mais suave, ter mais tempo para você poder relaxar indo, por exemplo, à praia mais vezes. Acredita piamente que se isso fosse realidade seria mais feliz, não é mesmo?
Mas, o que acontece quando chega na praia? Fica preocupado com o trabalho de amanhã, onde estará o seu filho àquela hora, se a sua casa está protegida, se o carro não vai ser roubado, etc. Sempre existe algum fator que não lhe deixa ‘curtir’ o momento presente.
Isto porque não compreende que estes ‘pensamentos’ são criações do ego para que você não vivencie com felicidade a criação de Deus. Ou seja, são proposições de provações ao espírito para ver se ele consegue manter a felicidade independente do que o ego está criando racionalmente.
Aí estão, portanto, os quatro ‘trabalhos’ para quem quer promover a reforma íntima. Aí está em rápidas palavras a reforma íntima, o renascimento que leva ao reino do céu, a libertação dos apegos. Aí está o equilíbrio que Lao-Tsé ensina e o não sofrimento que Buda diz que pode ser vivenciado.
Tudo o que todos os mestres ensinaram é alcançado quando você consegue se conscientizar do que deve fazer durante a encarnação: liberta-se do que já existe no seu ego e não o deixar formar novas verdades. Só assim você pode ‘curtir’ a vida, ou seja, vivenciar os acontecimentos da vida com um estado de espírito de felicidade incondicional.
Vive a felicidade que existe, não a construa. Não crie felicidade, viva a que já está dentro de você. Quando você vivencia esta felicidade honra a palavra empenhada com Deus e com os mentores na hora da encarnação.
Veja bem. Quando você acabou de criar o seu ego e ele foi ‘aprovado’ por Deus, garanto que você estava em lágrimas aos pés do Criador agradecendo a oportunidade e dizendo para Ele: ‘Senhor conte comigo. Eu já vi o que os seres humanizados, o que os espíritos que se deixam levar pelo ego fazem. Eu não vou fazer igual’.
Aí ‘nasce’ para não fazer igual àqueles que você observou, mas acaba agindo igualzinho e com isso não honra a ‘palavra’ empenhada ao Pai.
Participante: O caminho para libertação seria viver sem sentir nenhuma emoção? Fazer o que tiver que fazer sem se envolver com os frutos do trabalho?
Sim, o caminho para libertação é não se viver as emoções e realidades criadas pelo ego. Mesmo que seus atos aparentem que esteja vivendo as emoções ditadas pelo ego, interiormente não os viva. Ou seja, mesmo que seus atos aparentem um nervosismo, não se sinta nervoso internamente.
Nestas duas formas de se participar de um acontecimento do mundo carnal está a distinção entre viver e vivenciar. Viver é participar do ato racional e emocionalmente; vivenciar é observar o ato sem acreditar nos valores e nas emoções que o ego cria.
Participante: Como fica a questão do servir: servir ao próximo é servir a Deus ao ego?
Vou dividir a sua pergunta em duas (servir ao ego e servir a Deus) para poder lhe responder melhor. Vamos primeiro falar do serviço ao próximo.
Servir ao próximo é servir àquele que lhe está próximo e não ao ego, a você ou a Deus. E, o que determina a quem você está servindo é a intencionalidade com que participa da ação e não o ato que está sendo praticado.
Quando você acredita na racionalidade e na emotividade ilusória que lhe vem a mente durante uma determinada ação estará sempre servindo ao ego, pois tudo que vem deste criador de realidades ilusórias é fundamentado no individualismo. A característica individualista de qualquer ilusão criada pelo ego faz com que sempre ocorra uma intencionalidade e ela acaba com o serviço ao próximo.
Vou dar um exemplo para podermos compreender melhor.
Digamos que o ato que está ocorrendo é você dar um prato de comida a alguém que está com fome. Aparentemente você o está servindo, mas será que, dentro de tudo o que vimos neste estudo, realmente é isto que está acontecendo?
Veja bem. A sua felicidade não advém de dar o prato de comida, mas surge porque o que o ego racionalmente lhe disse que é ‘certo’ fazer aconteceu. Por isto reafirmo: você está servindo primariamente ao ego (ao desejo por ele proferido pela razão) do que ao próximo.
Claro que o prato de comida está sendo ofertado ao próximo, mas isto ficou em segundo plano. A intenção primaria foi fazer o que se quer (servir a racionalidade criada pelo ego). Antes de servir ao próximo, portanto, está servindo ao seu ego.
Agora, quando você pratica atos sem participar racional ou emocionalmente, ou seja, sem submeter-se às intenções individualistas embutidas naquilo que o ego está ‘falando’, estará servindo ao próximo. Este ‘serviço‘, no entanto, se dá por não servir ao seu ego e não pelo ato que se pratica.
Quanto a servir a Deus, não importa como você viva (se acredita ou não na racionalidade e nas emoções criadas pelo ego) sempre estará servindo a Deus. Isto porque, como ensina o Espírito da Verdade, cada espírito toma um instrumento em harmoniza com a matéria onde encarnará para ali cumprir as ordens de Deus (pergunta 132 de ‘O Livro dos Espíritos’).
Não importa o que seja feito, que ato seja praticado e nem como você vivencie cada um deles, tudo o que se realizar terá sido feito pelo Seu comando e,por isso, estamos sempre servindo a Deus.
Participante: Na maioria das vezes servimos ao ego achando que estamos servindo ao próximo…
Sempre é isso. Enquanto você não se libertar estará sempre servindo ao ego achando que está servindo ao próximo.
Por isso orientei anteriormente: se o seu ego diz que você é médium, não acredite, porque senão servirá ao ego. Ou seja, exercerá a mediunidade para ser médium e não servir ao próximo.
Mediunidade é doação, é caridade, não é benefício para quem a exerce. E, aquele que se acha ‘médium’ vê nisso um benéfico para si. Com isso não está servindo ao próximo mas ao seu ego.


