Egoísmo


Baseado no estudo de “O Livro dos Espíritos”.

913. Dentre os vícios, qual o que se pode considerar radical?

Temo-lo dito muitas vezes: o egoísmo. Daí deriva todo mal. Estudai todos os vícios e vereis que no fundo de todos há egoísmo. Por mais que lhes deis combate, não chegareis a extirpá-los, enquanto não atacardes o mal pela raiz, enquanto não lhe houverdes destruído a causa. Tendam, pois, todos os esforços para esse efeito, porquanto aí é que está a verdadeira chaga da sociedade. Quem quiser, desde esta vida, ir aproximando-se da perfeição moral, deve expurgar o seu coração de todo sentimento de egoísmo, visto ser o egoísmo incompatível com a justiça, o amor e a caridade. Ele neutraliza todas as outras qualidades.

O que é um vício? O que é estar viciado em alguma coisa? Antes de entramos no aspecto do maior vício, precisamos entender o que é isso.

Vício é uma dependência. Uma pessoa viciada é alguém dependente de alguma coisa. Isto é por definição o vício…

Este é o primeiro aspecto que devemos ter em mente para o que estudaremos hoje. Neste estudo, buscaremos compreender a ação do egoísmo como vício, ou seja, como o elemento universal do qual o ser humanizado se torna dependente, do qual depende para viver.

O egoísmo é o vício “mãe” do ser individualizado. É a sua dependência maior, aquilo sem o qual o espírito humanizado não consegue viver e que, por isso, precisa sempre vivenciar.

A partir da definição do egoísmo como vício, podemos afirmar que ele se materializa através de uma intenção individualista, do querer para si em primeiro lugar. O egoísmo ocorre quando o ser humanizado vive a partir do “eu”, quando pensa sempre em si, nas suas verdades, antes de qualquer coisa.

Esta é a dependência maior que um espírito humanizado possui: a de pensar sempre em si antes do próximo. É por isso que o Espírito da Verdade diz que o egoísmo (individualismo) acaba com o amor e com a caridade. Isto ocorre porque a necessidade de levar vantagem, de ser premiado sempre, elimina quaisquer resquícios de espiritualidade no espírito encarnado.

Ainda falaremos muito mais sobre este aspecto durante o dia de hoje, mas por agora é preciso que se compreenda que é necessário buscar-se o fim da dependência da satisfação do “eu” para poder se elevar espiritualmente (viver a espiritualidade do ser).

É preciso que o ser humanizado perca o vício do egoísmo, da necessidade do atendimento às suas vontades, ao seu desejo, às suas paixões. Este ser precisa se libertar do condicionamento da necessidade de ser atendido sempre, para poder aproximar-se de Deus.

É isso que o Espírito da Verdade está ensinando. Se o ser humanizado permanecer preso no que quer, gosta, no que imagina justo e certo estar ocorrendo, não alcançará nada com relação à reforma íntima.

Ele não consegue vivenciar o espiritualismo e o universalismo – elementos que surgem de um processo de reforma íntima – porque está preso apenas no individualismo. Se o ser humanizado opta por sempre viver situações que atendam nos mínimos detalhes os seus requisitos para ser feliz, comprova a sua dependência do egoísmo, do seu “eu material”, do seu querer e estes elementos não são universais. Portanto, nada foi conseguido no sentido de integrar-se ao Todo Universal.

Este é o primeiro aspecto de hoje: entender que o vício capital é esta dependência e que todas as outras atitudes dos seres humanizados se originam no querer para si sempre.

914. Fundando-se o egoísmo no sentimento do interesse pessoal, bem difícil parece extirpá-lo inteiramente do coração humano. Chegar-se-á a consegui-lo?

A medida que os homens se instruem acerca das coisas espirituais, menos valor dão às coisas materiais. Depois, necessário é que se reformem as instituições humanas que o entretêm e excitam. Isso depende da educação.

Isso que o Espírito da Verdade falou neste trecho deveria ser realidade, mas não é. A regra deveria ser que quanto mais o ser humanizado se instruísse a respeito das coisas espirituais, mais deveria se afastar do materialismo, mas infelizmente não é isso que vemos. O que se constata é que aqueles que “aprendem” sobre espiritualidade se prendem cada vez mais ao materialismo.

Poderia dizer que a busca de viver a espiritualidade na Terra é fundamentada num “espiritualismo materialista”. Isso porque os ensinamentos não reforçam a espiritualidade do ser, mas são utilizados no sentido de proporcionar melhores condições para a vida humana.

O espiritualismo ou qualquer outro ensinamento dos mestres é usado pelos seres humanizados no sentido de criar uma vida humana mais agradável, mais aprazível, de acordo com o individualismo (desejos individuais) de cada um ao invés de levá-lo a viver os acontecimentos deste mundo dentro da essência espiritual que eles possuem. Ou seja, o espiritualismo praticado no planeta está viciado pelo individualismo.

Para se vivenciar o espiritualismo na sua essência é necessário que o individualismo seja extirpado, ou seja, que os seus parâmetros de “certo” ou “errado” não prevaleçam para criar obrigações ao próximo. Sem que o ser humanizado se vença (suas paixões e desejos) não há espiritualismo. No máximo haveria um “espiritualismo materialista”.

Desta forma, saiba que sempre que você entrar em contato com qualquer coisa espiritual, a primeira ação deste ensinamento deve ser atacar aquilo que você acha que é “certo”, “bonito”, “limpo”, porque estes são os frutos do seu individualismo, instrumentos do seu egoísmo. Se o ensinamento não fizer isso o vício do individualismo neutralizará a sua ação espiritual.

É por isso que muitas pessoas acham que não trago nenhuma notícia “boa” para as suas vidas. Se trouxesse apenas aquilo que você quer ouvir, estaria nutrindo o seu materialismo e não ensinando o espiritualismo.

Eu sempre digo aos outros: compreenda que a sua vida é uma droga. Não uso este adjetivo no sentido de “ruim”, mas afirmo que “viver a vida” é ser viciado. “Viver” a vida material por ela mesmo, pelo seu sentido material, é usar materiais (verdades, certezas, paixões, desejos) que viciam, porque eles são fundamentados no egoísmo, no individualismo, no “eu”.

Quer um exemplo? Os que vivem a vida material, ou seja, baseiam-se nos conceitos materialista, criticam o viciado em cocaína, cigarro, bebida, carne ou qualquer elemento material considerado não-certo. No entanto, não compreendem que agindo desta forma estão mostrando que são viciados em egoísmo, ou seja, em quererem dizer o que deve ser feito pelo outro.

Quem quer viver a vida, ou seja, reformar atitudes humanas, não compreende que a vivência da vida é, por essência, um ato individualista, por que sempre começa pela constatação da existência do “eu”, da “minha vida”.

915. Por ser inerente à espécie humana, o egoísmo não constituirá sempre um obstáculo ao reinado do bem absoluto na Terra?

É exato que no egoísmo tendes o vosso maior mal, porém ele se prende à inferioridade dos Espíritos encarnados na Terra e não à Humanidade mesma. Ora, depurando-se por encarnações sucessivas, os Espíritos se despojam do egoísmo, como de suas outras impurezas. Não existirá na Terra nenhum homem isento de egoísmo e praticante da caridade? Há muito mais homens assim do que supondes. Apenas, não os conheceis, porque a virtude foge à viva claridade do dia. Desde que haja um, por que não haverá dez? Havendo dez, por que não haverá mil e assim por diante?

O que será que quer dizer o Espírito da Verdade quando afirma que o egoísmo se prende à inferioridade dos espíritos encarnados na Terra? Que o egoísmo se prende ao seu nível de elevação destes espíritos.

Portanto, o egoísmo que hoje você vivencia é resultante do seu nível de elevação e não uma “maldade” enraizada em seu coração. Ou seja, o egoísmo que fundamenta as compreensões que você tem durante a encarnação é o objeto de sua provação, um dos seus carmas, o que precisa ser “vencido”.

A partir daí a compreensão do nosso ensinamento se altera fundamentalmente. Muitos acreditam que quando falamos que o ser humanizado é egoísta estamos afirmando que ele é “mal”, “errado”, mas isso não é verdade.

Temos a plena consciência que é natural que você vivencie hoje o egoísmo quando interpreta os acontecimentos da vida carnal, porque ele faz parte do seu atual nível de elevação. Não estamos aqui para criticar ninguém, mas para alertar sobre a ação contrária do individualismo nas suas pretensões de elevação espiritual e, por conseguinte, da necessidade de libertar-se deste padrão vibratório para que você mude de patamar de elevação.

Constatamos o seu egoísmo apenas para poder afirmar que é necessário que se liberte do vício de ser sempre atendido e não para acusar. Este é um padrão de todos aqueles que realmente se interessam em aproximá-los de Deus: constatar e propor alternativas, mas nunca acusar nem cobrar aceitação ou cumprimento das diretrizes propostas.

Isto é muito diferente dos “espiritualistas materialistas”, ou seja, daqueles que utilizam o ensinamento para atender a pré-requisitos seus. Eles compreendem o ensinamento dos mestres e descobrem um “erro” seu, lhe acusam de ser errado, pecador, de não “prestar”.

Não é isso que estamos querendo dizer quando apontamos o egoísmo com o qual vive hoje. Sempre que constatamos uma característica do ser humanizado, como hoje estamos fazendo com o egoísmo, compreendemos que ela é um fundamento do ser humanizado porque faz parte do atual nível de elevação do espírito. Jamais afirmamos que um ser universal, um filho de Deus é “ruim”, “mal” ou “errado”.

Aliás, como já afirmamos anteriormente em diversas oportunidades, sabemos que o espírito é sempre luz, puro por natureza e jamais perderá na sua essência esta pureza. Ele “está” viciado em egoísmo, “está” egoísta, como resultante do seu atual nível de elevação espiritual, mas não é nada disso. Todo seu individualismo é uma poluição que surgiu com o advento, ou seja, com a ligação à personalidade humana (ego) que está vivenciando para provar a si mesmo que é capaz de superar o vício do egoísmo.

Então, não acusamos ninguém: mostramos o caminho onde o egoísmo pode ser superado para que o ser humanizado tenha consciência da sua ação e possa mudar a sua forma de vivenciar a vida carnal. Só isso.

Declaramos expressamente que para nós não há “mal”, não há nada “errado”, mas que existem apenas espíritos vivenciando a sua existência, seja na matéria ou fora dela, dentro do seu nível de elevação espiritual.

Esta também deverá ser a sua atitude se quiser libertar-se nesta vida do egoísmo que está vivenciando. Constatar que não existem seres humanizados “maus”, “ruins” ou “errados”, mas que cada espírito possui valores dentro do seu grau de elevação espiritual.

Se ao contrário, continuar se prendendo aos seus padrões como o “certo”, saiba que, mesmo que busque o caminho da espiritualidade, estará praticando o espiritualismo materialista, aquele que acusa os outros de “pecador”.

916. Longe de diminuir, o egoísmo cresce com a civilização, que, até, parece, o excita e mantém. Como poderá a causa destruir o efeito?

Quanto maior é o mal, mais hediondo se torna. Era preciso que o egoísmo produzisse muito mal, para que compreensível se fizesse a necessidade de extirpá-lo. Os homens, quando se houverem despojado do egoísmo que os domina, viverão como irmãos, sem se fazerem mal algum, auxiliando-se reciprocamente, impelidos pelo sentimento mútuo da solidariedade. Então, o forte será o amparo e não o opressor do fraco e não mais serão vistos homens a quem falte o indispensável, porque todos praticarão a lei da justiça. Esse o reinado do bem que os Espíritos estão incumbidos de preparar.

Repare bem no início deste ensinamento do Espírito da Verdade para que possamos ter consciência da hipocrisia (dizer que está pensando no outro, mas está sempre pensando em si) com que o ser humanizado vive: “era preciso que o egoísmo produzisse muito mal para que compreensível se fizesse a necessidade de extirpá-lo”.

Para falar dessa hipocrisia lhes pergunto: o que motivou as cruzadas, as chamadas guerras santas? Egoísmo. O que motivou os senhores de terra em criar e sustentar a escravidão? Egoísmo.

Os acontecimentos considerados como hediondos da história da humanidade sempre foram causados para atenderem a interesses individuais de determinados seres humanizados, ou seja, viciados no egoísmo destes. Mas por que Deus permitiu que isso acontecesse? Segundo o Espírito da Verdade para que você e todos os outros espíritos encarnados compreendessem o que o egoísmo de cada um produz.

Mas, não foram apenas esses os acontecimentos hediondos que ocorreram na história da humanidade. Na verdade eu utilizei exemplos muito distantes no tempo da realidade. Por que fiz isso? Porque este livro é do final do século XIX, ou seja, os acontecimentos hediondos a que se referiu o Espírito da Verdade eram esses.

Depois da publicação deste livro, ou seja, depois da divulgação deste ensinamento, já tivemos outros acontecimentos hediondos. Aconteceu a primeira e a segunda guerra mundial, a bomba atômica e mais recentemente os atos terroristas que são considerados pela humanidade como acontecimentos hediondos fundamentados no egoísmo de seres humanizados.

Estes acontecimentos recentes certamente não estavam na “cabeça” de Kardec quando ele fez a pergunta ao Espírito da Verdade. No entanto, se estivessem, o ensinamento seria o mesmo: ocorreram para que os seres humanizados compreendessem a que ponto pode levar a ação egoísta baseada nas suas vontades individuais.

Eu pergunto então: o que você, que já conhece este ensinamento, fez com relação a estes crimes hediondos? Agiu egoisticamente criticando aquele que foi egoísta. Mas você não acha que ao agir assim foi egoísta. Pelo contrário, imagina que estava “certo”.

A humanidade precisa compreender que a crítica, mesmo que dirigida ao egoísta, é ação do egoísmo de quem critica. Nenhuma crítica pode ser considerada “sadia” porque ela é fundamente numa verdade individualista, num padrão individual de verdade. Portanto, ação egoísta.

Como já estudamos fartamente, Deus cria os acontecimentos da Terra para que você compreenda a essência que causou tal ato e possa, assim, abrir mão da utilização de tal essência.

Nenhuma guerra surge no planeta se não houver uma intenção egoísta, se não houver um desejo individual. Portanto, as guerras existem para que você aprenda onde o egoísmo pode levar e abra mão de seus desejos próprios, mesmo que eles sejam considerados “certos”.

Mesmo que você deseje a paz, abra mão desse desejo para não criticar o próximo, pois se o fizer, estará agindo igualzinho a ele: fazendo guerra a quem quer guerrear.

O primeiro passo para poder abrir mão do egoísmo é abrir mão da crítica a quem age fora dos seus padrões individuais de “certo”. Ame a todos e a tudo acima de qualquer padrão que você tenha de certo ou errado. Aliás, Cristo ensinou: se você só cumprimenta quem lhe ama que vantagem tem? Até os pagãos fazem isso…

Faça as pazes com quem quer a guerra, pois só assim expressará o verdadeiro amor. A crítica, por mais que embasada em “boas intenções”, jamais será um ato de amor, pois ela se fundamenta no “eu”, no que cada um “sabe”, o que cerceia o direito do outro achar diferente.

Mas, para que você possa fazer a paz com quem quer a guerra é preciso antes se libertar do seu “eu” e da vontade de que este “eu” se sobreponha ao do próximo. Não me venham dizer que é impossível deixar de criticar Hitler porque ele fez a guerra ou o presidente dos Estados Unidos à época porque ele autorizou o uso da bomba atômica, porque não são deles estas ações.

Como o Espírito da Verdade acabou de nos dizer, o egoísmo precisa gerar um crime hediondo para ver se a humanidade cai na real e deixa de ser egoísta, de querer só para si, de querer levar vantagem em tudo. Por isso, se não fossem estes seres humanos que você acusa, teriam que ser outros, pois a guerra existiu e continuará existindo porque os seres humanizados ainda agem egoisticamente no seu dia a dia.

Nós estudamos anteriormente em “O Livro dos Espíritos” que a justiça consiste em respeitar o direito do outro (pergunta 875). Portanto, se você não quer que haja guerra e quer ser realmente justo, é preciso respeitar o direito do outro que quer fazer a guerra e não criticá-lo ou acusá-lo por isso.

Mas não, você acredita que precisa atacar quem quer guerrear para poder defender a paz ou para que a justiça prevaleça. Na verdade você não está defendendo a paz nem a justiça, mas aquilo que você considera como paz e justo, ou seja, os seus padrões individuais de paz e justiça. Por isso falei inicialmente em descobrir a nossa hipocrisia.

Estou usando a guerra como um exemplo apenas para entendermos, mas leve isso para todas as coisas da vida. Você diz que quer viver bem com todos, mas para que isso aconteça realmente tem que aprender a viver bem com todos e não exigir que os outros se fundamentem em você para que possa existir a boa convivência.

Ou seja, você acredita que os outros precisem agir como você agiria em determinada situação para que esteja em paz com ele. Para mim isto tem outro nome: opressão, totalitarismo.

Veja como é hipócrita a sua posição. Você diz que critica o próximo por amor, por querer o “melhor” para ele ou até para que a justiça aconteça, mas na verdade a sua real intenção é a total submissão do próximo ao seu padrão de “certo” para satisfazer o seu egoísmo.

Não, a crítica jamais será fundamentada no amor ou na justiça. Cada um tem o direito e a liberdade de agir e para que eu p ame verdadeiramente preciso respeitar este direito. Mas poder conceder esta liberdade ao próximo, é preciso que cada um se liberte do seu egoísmo, do vício de olhar primeiramente para si: o que acha “certo”, “bonito” ou o que quer.

Aprenda: para o mundo espiritual não é o ato em si que vale, mas a intenção com que cada um participa dos atos da existência carnal. E a intenção com a qual os espíritos participam dos atos humanizados hoje devido ao seu patamar de elevação espiritual fundamenta-se no “eu”, pois busca atender àquilo que cada um acha que deveria acontecer.

917. Qual o meio de destruir-se o egoísmo?

Antes da resposta do Espírito da Verdade deixe-me fazer um pequeno comentário. Preste bem atenção ao que vamos falar agora porque se o egoísmo é a determinante do seu nível de elevação espiritual, a ascensão só acontecerá com a destruição dele. Portanto, o que falaremos agora é fundamental para aquele que pretende aproveitar esta encarnação.

Só quando compreendemos profundamente a questão do egoísmo e da retirada da hipocrisia que comentei anteriormente (dizer que faz por amor e justiça quando apenas quer a submissão) poderemos realmente realizar o trabalho da reforma íntima. Sem esta ação moralizadora verdadeira o espírito se ilude durante a sua existência carnal achando que está fazendo o “certo”. Só depois do desencarne percebe a intenção egoísta com a qual vivenciou os atos de sua vida, mas aí já é tarde para alcançar a reforma íntima.

Costumo dizer que na luta contra o ego (elemento que cria a ação egoísta) é preciso mirar no general e não nos soldados. O supremo comandante do ego é o egoísmo que cria vários soldados (vaidade, ganância, soberba) para combaterem o espírito. Este general, no entanto, está camuflado pelas próprias ilusões de “certo” e “errado” que o ego criou e por isso não é localizado.

O espírito, então, luta contra os soldados, mas não ataca o comandante. O ego permite que o espírito faça isso e até que vença alguns de seus subordinados, para poder proteger-se no anonimato e continuar agindo nos subterrâneos da intenção dos seres sem ser percebido.

Neste trecho iremos mirar no general do seu ego (nos seus padrões de “certo” e “errado”) e não ficar atirando em soldadinhos que são peões nesta batalha. Iremos tratar o cancro que causa a ferida e não tratar dos efeitos que ele provoca.

Como a resposta de Fénelon é grande e aborda diversos aspectos, a estudaremos em parte.

De todas as imperfeições humanas, o egoísmo é a mais difícil de desenraizar-se porque deriva da influência da matéria, influência de que o homem, ainda muito próximo de sua origem, não pode libertar-se e para cujo entretenimento tudo concorre: suas leis, sua organização social, sua educação.

O egoísmo decorre da materialidade, nos ensina o amigo espiritual.

Já estudamos anteriormente o tema “materialidade” e definimos que ela não se consiste em estar ligado a uma massa carnal, mas acontece quando o ser universal encontra-se ligado a um ego humano. Portanto, o egoísmo surge e é natural no espírito quando ele está ligado a um ego humano.

Sendo assim, enquanto houver a ligação com o ego, a intenção que o ser humanizado terá será sempre fundamentada no egoísmo. Não importa a que ato estejamos nos referindo, vivenciá-lo subordinado aos padrões ditados pelo ego é ter a intenção baseada no egoísmo.

Seja na aplicação das leis humanas, seja nos padrões organizacionais de uma sociedade, seja na orientação do próximo sobre o que é “certo” (educar), enquanto o ser universal estiver humanizado (submisso aos padrões ditados pelo ego) o egoísmo ocorrerá.

Não importa que você “ache” que esteja “certo” ou até que a grande maioria concorde com você; se aplicar o que você acha que deveria estar acontecendo para julgar a atitude do próximo ocorreu um egoísmo e não uma justiça ou um amor.

Mas você não vê assim. Acredita que o acatamento às leis humanas deve ocorrer, que os padrões organizacionais de uma sociedade precisam ser respeitados, que você deve “educar’” os outros para eles ajam de forma “certa”. Mas quem disse isso?

As leis humanas são temporárias e individualizadas; as organizações sociais são extremamente diferenciadas de acordo com cada povo; o que você acha “certo” já se modificou milhares de vezes durante essa existência. Ou seja, nada disso é universal; e tudo que não é universal é ilusório, individual.

As leis que você acha “certa” são ilusórias, as organizações sociais que você imagina que todos têm que se submeter são ilusões, tudo que você acredita como “certo” mudará quando se libertar dos padrões impostos pelo ego. Portanto, exigir agora o cumprimento destes padrões ao próximo é submeter-se ao ego o que, naturalmente, leva ao egoísmo.

Enfim, ter um padrão, seja sobre que assunto for, de “certo” ou “errado”, “bonito” ou “feio”, gera automaticamente a presença do egoísmo, porque ele se consiste na cobrança de que o próximo atenda o seu padrão.

É por isso que Buda chama os padrões de paixões. Você é verdadeiramente apaixonado pelos seus padrões de “certo” e “errado” e desta paixão surge, então, o desejo do cumprimento daquilo que você acha “certo” e o desejo da não existência daquilo que você acha “errado”. Ou seja, o egoísmo em ação.

O egoísmo se enfraquecerá à proporção que a vida moral for predominando sobre a vida material e, sobretudo, com a compreensão, que o Espiritismo vos faculta, do vosso estado futuro, real e não desfigurado por ficções alegóricas.

Dois aspectos a analisarmos neste trecho. Primeiro: o egoísmo acaba com a elevação moral.

Se o egoísmo é contrário à elevação espiritual e se ele é fundamentado no “eu”, a elevação moral se consiste em buscar o “nós”. A partir daí pergunto: o que é elevar-se moralmente?

Certamente não tem nada a ver com não fazer aborto, com não matar, ou seja, não está vinculada a padrões humanos. A elevação moral ocorre apenas quando o ser humanizado abandona o “eu” e vive o “nós”, não tendo importância que atos ele pratique.

O “nós” a que estamos nos referindo é aquele que é alcançado pela fusão perfeita de todos, ou seja, quando todos tiverem direitos iguais. Sendo assim, a elevação moral é alcançada quando cada um tiver o direito de ser, estar e fazer o que quiser e você não o julgue por isso.

Segundo aspecto destacado por Fénelon: o espiritismo lhe ensina a Realidade. Para podermos entender isso vamos ver que Realidade o Espiritismo nos ensina.

Em primeiro lugar o Espiritismo diz que você é um espírito. Encarnado, ligado a um ego, mas que não deixa de ser um espírito. Isso fica bem claro numa série de perguntas que já estudamos, mas para relembrar vou citá-las.

O que era a alma antes de encarnar? Espírito. O que voltará a ser a alma depois de desencarna? Espírito.

“Estar alma”, ou seja, encarnado, portanto, não acaba com nossa essência Real (espírito), mas apenas destaca uma condição especial temporária de vivência (estar ligado a um ego).

Segunda Realidade que o Espiritismo ensina: há uma interação entre mundo espiritual e material a tal ponto que nada acontece neste mundo sem a interseção dos espíritos.

Como esta Realidade criada pelo Espiritismo nem sempre é aceita pelo ego humanizado, vou citar textualmente o comentário de Kardec aos ensinamentos do Espírito da Verdade.

“Imaginamos erradamente que aos Espíritos só caiba manifestar sua ação por fenômenos extraordinários. Quiséramos que nos viessem auxiliar por meio de milagres e os figuramos sempre armados de uma varinha mágica. Por não ser assim é que oculta nos parece a intervenção que têm nas coisas deste mundo e muito natural o que se escuta com o concurso deles”.

“Assim é que, provocando, por exemplo, o encontro de duas pessoas, que suporão encontrar-se por acaso; inspirando a alguém a idéia de passar por determinado lugar; chamando-lhe a atenção para certo ponto, se disso resulta o que tenham em vista, eles obram de tal maneira que o homem, crente de que obedece a um impulso próprio, conserva sempre o seu livre arbítrio” (pergunta 525 a).

Nas perguntas seguintes (526 a 528) esta Realidade fica muito mais clara quando o Espírito da Verdade mostra que os espíritos conduzirão o homem que deve sucumbir para uma escada quebrada ou para debaixo da árvore onde o raio cairá. Isto acontece deste jeito porque os espíritos fora da carne não podem alterar o curso dos elementos da natureza, mas dirigem o homem para que lhe aconteça o que está previsto. Cita ainda esta parte do estudo de O Livro dos Espíritos que aquele que não deve morrer de uma bala perdida será inspirado para se desviar, já que os trabalhadores do Senhor não podem desviar a bala para salvar o homem.

Esta é a Realidade que o Espiritismo ensina: os espíritos comandam as ações do ser humano ao invés de, como mágicos, agirem sobre os elementos da natureza.

Este conhecimento deveria lhe levar, nas palavras de Fénelon a acabar com a ficção alegórica que você vivencia e chama de realidade, verdade. A sua realidade não tem nada de Real, pois você não percebe toda movimentação dos amigos espirituais guiando seus passos, mas imagina que age por moto próprio.

Krishna define a realidade que o ser humanizado vive como fantasias fantasmagóricas. Ou seja, os dois mestres têm a mesma compreensão sobre aquilo que você vive como real: uma ficção, uma fantasia.

Olhe agora para o computador à sua frente. Você está vendo um monitor que está projetando uma imagem? Esta percepção é uma ficção alegórica, uma fantasia fantasmagórica. O que está à sua frente na realidade é fluído cósmico universal.

Você está vendo agora um inimigo, alguém de quem não goste? Isto é uma ilusão, uma ficção alegórica, porque não há um ser humano à sua frente, mas um espírito encarnado. A sua compreensão de que ele está agindo contra você também é uma ficção porque ninguém pratica atos, mas cumpre ações guiadas pelos amigos espirituais a partir do mundo dos espíritos.

Então veja. Não é só hinduismo que fala, mas também o Espiritismo diz que você vive uma peça de teatro chamada “Divina Comédia Humana”, como realidade, mas que ela não passa de uma ficção alegórica, de fantasias fantasmagóricas.

Quando, bem compreendido, se houver identificado com os costumes e as crenças, o Espiritismo transformará os hábitos, os usos, as relações sociais.

Quando bem entendido e identificado o Espiritismo poderá surtir algum resultado na sua elevação espiritual. Antes, não.

Que adianta você dizer que compreende os ensinamentos de O Livro dos Espíritos; que adianta você dizer que se identifica com os ensinamentos trazidos pelo Espírito da Verdade, se ainda chora em um enterro acreditando que seu ente querido acabou?

Que adianta dizer que se identifica com estes ensinamentos se eles afirmam que os espíritos nos guiam, que ninguém morre antes da hora e que Deus sabe a forma como cada um vai desencarnar (pergunta 853 a) se você ainda acredita num assassinato praticado por um assassino?

Não adianta estudar: é preciso compreender e se identificar com a Realidade criada pelo ensinamento. Mas, para criar esta Realidade é preciso se libertar do individualismo. Sem isso, o próprio egoísmo que criará uma interpretação individual de O Livro dos Espíritos e dirá que você é que está “certo”.

Neste caso você não mudou nada, não reformou nada, porque a base, a essência da intencionalidade continua o que você acha está “certo” e o que os outros acham “que se dane”.

Esta palavra parece forte, mas é preciso compreender que quando nos apegamos somente àquilo que acreditamos como “certo” e não damos aos outros o direito de pensar diferente em qualquer aspecto da vida, estamos demonstrando o nosso menosprezo pelo irmão.

Repare que, como Fénelon, falei em todos os aspectos da vida e não só naqueles que você quer alterar. Este é o aspecto que precisa ser atentado por quem quer atacar diretamente o general.

Se o ser humanizado separar verdades que podem ser abandonadas e deixar outras que imagina que são sem importância para o mundo espiritual, nada estará realizando. A vitória precisa ser total.

Não existem atos da vida que não tenham relevância na elevação espiritual. Tudo é fundamental no trabalho da reforma íntima porque só existe um único mundo que é composto por tudo.

O egoísmo assenta na importância da personalidade. Ora, o Espiritismo, bem compreendido, repito, mostra as coisas de tão alto que o sentimento da personalidade desaparece, de certo modo, diante da imensidade.

Exato: o seu sentimento egoísta precisa acabar quando surge a compreensão da existência única do espírito.

Veja bem. O seu egoísmo atual é exercido com base nos elementos (paixões) da sua personalidade de hoje… e a de ontem, era “errada”? Será que os que existirão nas futuras serão iguais aos de hoje?

Além do mais, seus valores egoístas podem ferir a Realidade espiritual dos outros seres que o cerca. O desejo de a sua mãe permanecer “viva”, por exemplo, precisa acabar quando se compreende a real existência de um ser humano: a encarnação de um espírito.

Quando você entende que “ela” é um espírito e que tem toda uma vida espiritual a ser vivida, precisa abandonar toda a sua vontade de que permaneça “viva”, apenas para satisfazer os seus caprichos, as suas vontades. Isso porque, aprisionando-a a esta existência, estará “atrasando” o seu processo evolucional.

Sem esta consciência não adianta se dizer espírita, não adianta orgulhar-se de seu conhecimento, não adianta ir ao centro toda semana. Sem esse despossuir o “eu” nada se faz, por mais que se desvende o invisível.

Destruindo essa importância, ou, pelo menos, reduzindo-a às suas legítimas proporções, ele necessariamente combate o egoísmo.

O que é reduzir às suas devidas proporções? É reduzir os fatos da vida à carne, à matéria, apenas.

No exemplo que dei anteriormente (a morte da mãe) reduzir este acontecimento à sua legítima proporção seria acreditar que um papel até então desempenhado por um espírito encerrou-se. Isto é bem diferente de acreditar que “a mãe morreu”. É isso que é reduzir a importância: dar ao acontecimento o valor temporário que ele tem.

No entanto, mesmo para aqueles que conhecem os ensinamentos do Espírito da Verdade, a morte é tratada como se fosse o fim. Choram afirmando que nunca mais verão seus parentes e amigos, enquanto aprenderam que a existência do espírito é eterna. Quem age desta forma pode se dizer espírita?

É preciso reduzir os acontecimentos do mundo à sua real importância. O que vale um acontecimento do mundo frente à existência eterna do espírito? Nada.

Cristo já nos ensinou: Deus julga a intenção de cada um. É isso que tem valor para o mundo espiritual: a intenção com que se participa dos acontecimentos.

Se você participa com a intenção de ganhar individualmente, não importa o que esteja fazendo, mesmo que seja um ato considerado pela humanidade como caridoso, nada fez a respeito do mundo espiritual, ou a respeito da sua reforma: deixar de ser egoísta.

Participante: E como nós passamos isso para nossos filhos?

Para sabermos como passar para nossos filhos, precisamos saber antes como passamos agora.Ou seja, como você educa seu filho hoje.

“Olha como você está bonita com esta roupa nova”… “Como você está lida penteada e de banho tomado”… “Como seu quarto está lindo arrumado”.

Posso, sem medo de errar, dizer que toda a educação que você dá a seu filho é forjada em cima daquilo que você acha “certo”, não? São os seus padrões de “certo” e “errado” que criam o “elogio” (aquilo que deve ser aprendido) e a “crítica” (aquilo que não deve mais continuar sendo feito).

Isto é egoísmo e não amor. Muitos pais dizem que agem assim para “ensinar” os filhos porque os amam, mas na verdade estão agindo egoisticamente, ou seja, estão pensando em satisfazer a si mesmo, aos seus padrões, e não nos filhos.

Além de se prenderem unicamente em posturas materiais, os pais não respeitam o direito do filho, o livre arbítrio deles, pois coíbem o “querer” do próximo.

É assim que educam seus filhos: pensando em ter o prazer de ter um filho que seja cópia de vocês, mesmo que para isso eles percam a sua individualidade.

Como passar este ensinamento que estamos conversando hoje para seu filho? Abrindo mão do seu egoísmo, ou seja, abrindo mão do seu desejo de transformar o seu filho na cópia daquilo que você quer.

Ensina-se o filho a acabar com o egoísmo não sendo egoísta. Achando-o lindo de qualquer jeito, não o incentivando a estudar apenas para ser “alguém na vida” e ganhar um salário maior e ter mais posses…

Os seres humanizados, mesmo os que se dizem espíritas, incentivam seus filhos a valorizar aqueles que têm posses materiais e a possuir tudo o que puder. Na verdade, estes seres transformam aqueles que possuem um “bom nível de vida” num espelho a ser seguido e não aqueles que, mesmo não tendo, amam a todos e a tudo.

Mude tudo isso. Ensine seu filho a valorizar o “nós” e não valorizar o que os outros têm. A viver feliz não importando se o quarto esteja arrumado ou não.

Não o incite a valorizar o ato elogiando a organização dele, o não fazer barulho quando você quer silêncio, o agir de determinada forma porque você e a sociedade esperam isso dele, mas sim a perseguir uma intenção amorosa em todas as situações.

Criar o espírito e não o filho: este é o segredo.

Ensine-o a amar incondicionalmente: a tudo e a todos. Amar sem regras, sem exceções. Não o ensine a “ganhar”, a ser bem comportado, organizado, culto ou a valorizar o que é material, mas sim a ter “paz de espírito” e estar em harmonia com o mundo.

Mas, para poder ensinar tudo isso ao seu filho você precisa também estar buscando isso e, para tanto, é preciso estar buscando se libertar do seu egoísmo, do seu desejo de que seus padrões sejam atendidos. Portanto, para educar seu filho, comece mudando você mesmo.

Liberte-se você do seu egoísmo para poder educar o seu filho dentro desta forma de viver. Liberte-se dos seus padrões de “arrumado”, de “bonito”, de “certo” e “errado”, do que seu filho tem que fazer agora, senão não saberá ensinar nada.

Aliás, o fundador material do espiritismo, Allan Kardec, compreendeu bem isto. Veja o seu comentário ao estudo deste item:

Louváveis esforços indubitavelmente se empregam para fazer que a Humanidade progrida. Os bons sentimentos são animados, estimulados e honrados mais do que em qualquer outra época. Entretanto, o egoísmo, verme roedor, continua a ser chaga social. É um mal real, que se alastra por todo o mundo e do qual cada homem é mais ou menos vítima. Cumpre, pois, combatê-lo, como se combate uma enfermidade epidêmica. Para isso, deve-se proceder como procedem os médicos: ir à origem do mal. Procurem-se em todas as partes do organismo social, da família aos povos, da choupana ao palácio, todas as causas, todas as influências que, ostensiva ou ocultamente, excitam, alimentam e desenvolvem o sentimento do egoísmo. Conhecidas as causas, o remédio se apresentará por si mesmo. Só restará então destruí-las senão totalmente, de uma só vez, ao menos parcialmente, e o veneno pouco a pouco será eliminado. Poderá ser longa a cura, porque numerosas são as causas, mas não é impossível. Contudo, ela só se obterá se o mal for atacado em sua raiz, isto é, pela educação, não por essa que tende a fazer os homens instruídos, mas pela que tende a fazer homens de bem. A educação, convenientemente entendida, constitui a chave do progresso moral. Quando se conhecer a arte de manejar os caracteres, como se conhece a de manejar inteligências, conseguir-se-á corrigi-los, do mesmo modo que se aprumam plantas novas. Essa arte, porém, exige muito tato, muita experiência e profunda observação. É grave erro pensar-se que, para exercê-la com proveito, baste o conhecimento da Ciência. Quem acompanhar, assim o filho do rico, como o do pobre, desde o instante do nascimento e observar todas as influências perniciosas que sobre eles atuam, em conseqüência da fraqueza, da incúria e da ignorância dos que os dirigem, observando igualmente com freqüência falham os meios empregados para moralizá-los, não poderá espantar-se de encontrar pelo mundo tantas esquisitices. Faça-se com o moral o que se faz com a inteligência e ver-se-á que, se há naturezas refratárias, muito maior do que se julga é o número das que apenas reclama boa cultura, para produzir bons frutos.

O homem deseja ser feliz e natural é o sentimento que dá origem a esse desejo. Por isso é que trabalha incessantemente para melhorar a sua posição na Terra, que pesquisa as causas de seus males, para remediá-los. Quando compreender bem que no egoísmo reside uma dessas causas, a que gera o orgulho, a ambição, a cupidez, a inveja, o ódio, o ciúme, que a cada momento o magoam, a que perturba as relações sociais, provoca dissensões, aniquila a confiança, a que o obriga a se manter constantemente na defensiva contra o seu vizinho, enfim, a que do amigo faz inimigo, ele compreenderá também que esse vício é incompatível com a sua felicidade e, podemos mesmo acrescentar, com a sua própria segurança. E quanto mais haja sofrido por efeito desse vício, mais sentirá a necessidade de combatê-lo, como se combatem a peste, os animais nocivos e todos os outros flagelos. O seu próprio interesse a isso o induzirá.

O egoísmo é a fonte de todos os vícios, como a caridade o é de todas as virtudes. Destruir um e desenvolver a outra, tal deve ser o alvo de todos os esforços do homem, se quiser assegurar a sua felicidade neste mundo, tanto quanto no futuro.

Participante: Mas, o senhor ensina que os atos desta existência estão pré-escritos como vivencia de carmas. Sendo assim, se ela precisar por causa dos seus carmas de alguém que lhe cobre organização, alguém terá que ser o instrumento deste carma, certo?

Se ela precisa do carma de ser chamada à organização você, com certeza, praticará atos que espelhem uma cobrança à organização. No entanto, tal entendimento não fere o ensinamento que lhe passei agora. Isto porque eu não falo em atos, mas no interior de cada um.

O que estou ensinando aqui ao comentar o egoísmo que move cada ser humanizado é que você pode, se isso é o carma dela, cobrar exteriormente organização, mas, por dentro (sentimentalmente) não pode se sentir responsável e nem esperar ou exigir que ela se organiza.

Por dentro, no íntimo e não nos atos: aí está a diferença.

A decisão dela se organizar ou de continuar sendo desorganizada não está ao seu alcance nem ao dela. Ela será da forma que terá que ser carmaticamente falando, independente de qualquer outra atitude sua ou de qualquer um, pois este é o “papel” dela nesta vida. Como ensina Krishna, cada um age dentro da sua personalidade.

Da mesma forma, você falar, brigar, gritar, pedindo que ela se organize também terá que acontecer, pois este é o seu “papel”. Agora, quando você sofre porque ela não faz o que você quer utilizou o seu individualismo, o seu egoísmo para gerar o sofrimento.

O ensinamento que estamos debatendo hoje é interno, é um estado de espírito. Na hora que você, por atos, cobrar organização mas, ao mesmo tempo, não cobrar de você sofrer porque ela não se organizou, libertar-se-á do individualismo, deixará de ser egoísta.

O choque, que o homem experimenta, do egoísmo dos outros é o que muitas vezes o faz egoísta, por sentir a necessidade de colocar-se na defensiva.

Que ensinamento maravilhoso. Vamos lê-lo juntos, para tentar captar em toda profundidade o que Fénelon ensina.

O choque do egoísmo do outro lhe faz egoísta. Ou seja, quando o outro faz o que quer baseado nos seus padrões de “certo” e “errado”, você se torna egoísta, ou seja, utiliza os seus padrões para julgá-lo e, assim, acaba achando que ele não deveria fazer o que está fazendo.

Você se transforma em egoísta quando alguém lhe contraria porque premia os seus valores como “certos” e quer impô-los ao outro. Julga e critica porque quer defender o seu “eu” (conjunto de valores de um ego – consciência) do outro.

Para acabar com este egoísmo existe um provérbio de Salomão que diz: se Deus é por mim, quem poderá ser contra. É isso que o ser humanizado se esquece e, por isso, tenta se “defender” do outro.

A humanidade não vê Deus a seu favor. Vive com a realidade de que o outro está lhe massacrando, ferindo, atacando, mas isso é ilusão. Na verdade o outro está apenas exercendo o direito dele achar que está certo.

Mas, para que ele age assim na sua frente? Para que você se liberte do seu individualismo.

Veja, se você não se conscientizar que não existe o “certo”, mas sim o que você quer que seja feito, ou seja, o seu “certo”, não evoluirá nunca. É para que você se conscientize de que tem um “certo” que precisa ser eliminado para acabar com o egoísmo é que Deus faz os outros fazerem diferente do que você espera e quer.

Podemos, então, compreender que Deus faz o outro usar do individualismo dele na sua frente para que você tenha uma oportunidade de dizer: “meu Deus, eu sou egoísta porque quero que o outro utilize o meu ‘certo’ e não o dele”. Este é o “motor” da vida, ou o carma em ação.

Conscientize-se de que você quer cobrar mudanças no outro, exigir padrões de ação neles, mas não quer que ninguém lhe cobre, que ninguém lhe contrarie. Egoísmo, puro egoísmo.

Se Deus é por mim e está ao meu lado, o outro pode fazer o que quiser que eu não vou precisar exigir a justiça, mas entenderei o “recado” do Pai e O louvarei, pois Ele ama a todos que são diferentes de mim, sem cobrar mudanças neles.

Foi isto que Fénelon ensinou e, por isso eu disse: que lindo ensinamento.

Notando que os outros pensam em si próprios e não nele, ei-lo levado a ocupar-se consigo, mais do que com os outros. Sirva de base às instituições sociais, às relações legais de povo a povo e de homem a homem, o princípio da caridade e da fraternidade e cada um pensará menos na sua pessoa, assim veja que outros nela pensaram.

Aplique estes ensinamentos em qualquer situação que você viva, independente da suposta “importância” que conceda a eles. Assim, com certeza, ele servirá como base para a prática da caridade necessária ensinada pelos mestres.

Ou seja, que ele sirva como guia a você quando é criticado, acusado, perseguido, xingado, ofendido, atacado, para poder praticar a caridade: dar ao outro o direito de, aparentemente, agir contra você sem que para isso você precise criticá-lo.

Aliás, não foi assim que Cristo reagiu durante a sua “crucificação”: Pai, perdoa, eles não sabem o que fazem…

Deixe os outros falarem e acharem o que quiserem: esta é a verdadeira caridade. Dê ao outro o direito de ser individualista, de viver a sua individualidade e você, abrindo mão de viver a sua, vivencia a universalidade.

Nós ainda estamos na mesma pergunta: como vencer o egoísmo. No entanto, repare que os ensinamentos extraídos nesse pequeno texto não precisam de conhecimentos anteriores para ser compreendido. Portanto, se você quer se libertar do mal maior da humanidade (o egoísmo) não precisa perder tempo em estudos profundos, mas apenas ler este trecho de Fénelon e compreendê-lo em toda a sua profundidade.

Todos experimentarão a influência moralizadora do exemplo e do contacto. Em face do atual extravasamento de egoísmo, grande virtude é verdadeiramente necessária, para que alguém renuncie à sua personalidade em proveito dos outros.

É o que eu acabei de falar: abrir mão da sua personalidade em favor do outro.

Vamos criar um exemplo poder explicar melhor. Alguém lhe diz que você está fazendo a coisa “errada”, que você não sabe fazer aquilo. A sua personalidade, o seu “eu material” (ego) dirá que ele é que não sabe o que faz. O acusará , xingará e criticará.

Esta é a reação de um ser humanizado. Mas você, que quer se espiritualizar, que quer se elevar, que quer chegar mais perto de Deus precisa abrir mão de tudo isso e deixar outro achar o que quiser, sem acusações ou críticas.

Isto porque no fundo de tudo, no resumo de tudo da vida, nenhuma influência terá o que o outro acha de você ou vice-versa, pois tudo é sempre entre você e Deus. Então o que importa o que os outros acham?

O que importa para a sua existência espiritual o que o outro, exercendo o seu individualismo, os seus padrões de “certo” e “errado”, acha de você, se na hora do seu “julgamento” (avaliação do resultado de sua encarnação) o que importará é o que Deus souber? E Ele sabe o que ninguém sabe…

Ele sabe que não há nada “errado” ou “certo” acontecendo, mas que um carma foi proposto e o espírito humanizado agiu com intencionalidade egoísta ou universalista.

Lembre-se do que Cristo ensinou: com o mesmo argumento que você usar para julgar será julgado. Ou seja, se você coloca o seu individualismo para julgar os outros ao invés de deixar tudo nas mãos de Deus, o seu individualismo será “julgado”

Principalmente para os que possuem essa virtude, é que o reino dos céus se acha aberto. A esses, sobretudo, é que está reservada a felicidade dos eleitos, pois em verdade vos digo que, no dia da justiça, será posto de lado e sofrerá pelo abandono, em que se há de ver, todo aquele que em si somente houver pensado..

O que está dito neste trecho foi exatamente o que estudamos nesta resposta. Trata-se, portanto, de um resumo.

918. Por que indícios se pode reconhecer em um homem o progresso real que lhe elevará o Espírito na hierarquia espírita?

O espírito prova a sua elevação, quando todos os atos de sua vida corporal representam a prática da lei de Deus e quando antecipadamente compreende a vida espiritual.

Como se reconhece o “homem de bem”? Quando ele coloca o amor ao próximo em prática. Como se amar ao próximo? Libertando-se do seu individualismo.

Não há como mamar ao próximo e a si mesmo ao mesmo tempo… Não estou falando em amar como vocês conhecem, no sentido material que se dá a este sentimento, mas sim no amor universal, fraternal.

Este estado de espírito acontece quando o ser humanizado ama ao próximo antes de si, ou seja, quando ele respeita o direito do outro ser diferente dele. Por isto afirmei que a crítica, por mais bem intencionada que seja, não é e jamais poderá ser um ato de amor.

Veja a conclusão que chegou Allan Kardec e repare se não é isto que falei agora:

Verdadeiramente, homem de bem é o que pratica a lei de justiça, amor e caridade, na sua maior pureza. Se interrogar a própria consciência sobre os atos que praticou, perguntará se não transgrediu essa lei, se não fez o mal, se fez todo bem que podia, se ninguém tem motivos para dele se queixar, enfim, se fez aos outros o que desejara que lhe fizessem.

Possuído do sentimento de caridade e de amor ao próximo, faz o bem pelo bem, sem contar com qualquer retribuição, e sacrifica seus interesses à justiça.

É bondoso, humanitário e benevolente para com todos, porque vê irmãos em todos os homens, sem distinção de raças, nem de crenças.

Se Deus lhe outorgou o poder e a riqueza, considera essas coisas como um depósito, de que lhe cumpre usar para o bem. Delas não se envaidece, por saber que Deus, que lhas deu, também lhas pode retirar.

Se sob a sua dependência a ordem social colocou outros homens, trata-os com bondade e complacência, porque são seus iguais perante Deus. Usa da sua autoridade para lhes levantar o moral e não para os esmagar com o seu orgulho.

É indulgente para com as fraquezas alheias, porque sabe que também precisa a indulgência dos outros e se lembra destas palavras do Cristo: atire a primeira pedra aquele que estiver sem pecado.

Não é vingativo. A exemplo de Jesus, perdoa as ofensas, para só se lembrar dos benefícios, pois não ignora que, como houver perdoado, assim perdoado lhe será.

Respeita, enfim, em seus semelhantes todos os direitos que as leis da Natureza lhes concedem, como que que os mesmos direitos lhe sejam respeitados.

É isto que caracteriza um “homem de bem”: aquele que participa das ações com a intencionalidade de servir ao próximo, buscando sempre servi-los e não corrigi-los. Esta característica, no entanto, deve surgir principalmente naquele que aprende a ver as coisas do alto, ou seja, aquele que conhece e reconhece a existência espiritual.

A prática do ensinamento é o espiritualismo e não apenas o conhecimento dele.

Encerrando, posso dizer que o dia de hoje foi totalmente destinado à libertação do “eu”, das nossas verdades e dos nossos padrões.

O Espírito da Verdade nos ensinou hoje o que é elevar-se espiritualmente: dar ao próximo o direito dele ser, estar e fazer o que quiser sem que com isso possamos julgá-lo ou criticá-lo.

Aí está o segredo do Universo. Aí está o segredo da elevação espiritual.

Ninguém falou em meditação, em viagem astral, em oração ou técnicas espirituais. Falou-se em coisas reais, não em ilusões. Isto porque tudo que o ser humanizado vive racionalmente é vivenciado na ilusão, mesmo que o tema da razão seja espiritualidade.

A viagem astral é uma ilusão porque a compreensão do que se vê quando se “sai da carne” passa pelo ego. A oração também é uma ilusão porque ela passa pelo ego.

Desta forma afirmo que o único trabalho, a única coisa que você pode fazer no sentido de espiritualizar-se é vencer a si mesmo.

Vencer o seu apego ao ego que lhe transforma em egoísta. Vencer o seu apego aos seus padrões de “certo” e “errado”, de “bonito” e “feio”, de “limpo” e “sujo”, que diz o que tinha que fazer ou não.

É só nisso que se consiste a vida. Você está vivo para isso. Você nasceu para fazer isso, acordou hoje de manhã para isso, está respirando agora para isso e mais nada.

Você não tem um trabalho material nem espiritual a realizar nem família para cuidar. O que você tem para fazer é na vivência de cada um desses elementos, não importa o que estiver acontecendo, vencer você.

Você tem que vencer suas verdades, seus apegos, suas paixões, suas convicções que levam ao exercício do egoísmo. É nisso que se resume a sua vida.

fonte: meeu.org